“Posso te perguntar uma coisa pessoal?”
O coração de Penelope acelerou.
“Pode.”
“Por que você deixa a Posy te tratar assim?”, perguntou ele, sem julgamento na voz, apenas curiosidade misturada com raiva contida. “Por que você aceita as humilhações?”
A pergunta a atingiu em cheio.
“Porque a Henrietta, nossa mãe, a ama”, disse Penelope finalmente, as palavras saindo com cuidado. “E famílias são complicadas. Relações entre irmãs, ainda mais. E porque uma parte de mim acredita que talvez a Posy esteja certa, que eu realmente não pertenço a esse mundo dela.”
Scott ficou sério e pegou a mão dela por cima da mesa.
“Isso é um completo absurdo”, disse ele com forte convicção. “Você pertence a qualquer lugar que escolher. A Posy tem inveja.”
“De quê?” perguntou Penelope, sem conseguir imaginar. “Ela é bem-sucedida, rica, linda—”
“E amargurada”, interrompeu Scott. “Profundamente infeliz apesar de tudo. Você é gentil, genuína. As pessoas naturalmente gravitam em direção à autenticidade. A Posy provavelmente viu isso a vida toda. Viu garotos te escolherem. Viu pessoas gostando de você sem que você precisasse manipular, e odiou cada segundo disso.”
Ninguém nunca tinha dito isso dessa forma. Penelope sentiu algo apertar seu peito, um reconhecimento doloroso, mas libertador.
Quando olhou para o relógio, eram 3h da manhã.
“Precisamos ir”, disse ela com genuína relutância.
“Posso te ver de novo?” perguntou Scott antes que ela se levantasse. “Sem o vestido horrível, sem a irmã terrível. Só nós dois.”
“Por quê?” perguntou Penelope, confusa. “Você conseguiu sua vingança social. A Posy está humilhada. Missão cumprida.”
Scott olhou para ela como se ela tivesse dito algo absurdo.
"Não se tratava de vingança", disse ele. "Bem, 20% foi uma vingança deliciosa, não vou mentir. Mas 80%..."
"Foi porque você parecia precisar de um amigo e porque não consigo parar de pensar em como você riu quando fiz aquela piada horrível sobre os canapés no terraço."
"Aquelas piadas eram ruins", disse Penélope, sorrindo.
"As melhores sempre são", concordou Scott, pegando o celular dela e digitando seu número. "Me manda uma mensagem quando chegar em casa."
Scott insistiu em pagar a conta inteira, apesar dos protestos, e os levou para casa na limusine. Deixaram Alex primeiro, depois Taylor, que abraçou Penélope com força e sussurrou: "Ele é perfeito. Não estrague tudo", antes de sair.
Quando chegaram à casa de Penélope, Henrietta estava acordada e saiu confusa ao ver a limusine.
Scott saiu e se aproximou com seu charme natural.
"Scott Ferrari", disse ele, estendendo a mão. "Sua filha salvou minha noite do tédio mortal em um evento pretensioso. Obrigado por me emprestá-la."
Henrietta visivelmente se derreteu, dividida entre interrogá-la e manter a compostura.
"É um prazer", ela conseguiu dizer. "Não sabia que você estaria no evento da Posy."
Nos dias seguintes, Scott mandou mensagens para Penelope constantemente. Tudo começou na manhã seguinte com uma foto de waffles e a mensagem "Pensando em você", o que fez o coração dela disparar. Ele enviou memes ruins, fotos de pinturas, perguntas sobre o dia dela com as crianças, e ela respondeu, inicialmente hesitante, mas gradualmente mais à vontade.
Na sexta-feira seguinte, ele a convidou para uma galeria de arte particular. Não era um evento social, explicou ele, apenas os dois.
A galeria era pequena e aconchegante, com uma iluminação suave que fazia as pinturas brilharem. Scott a guiou pela galeria, explicando cada obra com uma paixão genuína que era linda de se ver.
"E esta aqui?", perguntou Penelope, parando em frente a uma tela que parecia apenas respingos de tinta sem nenhum padrão.
"Pollock", disse Scott seriamente. "Expressionismo abstrato." “Técnica revolucionária.”
“Parece respingos de tinta”, disse Penélope honestamente, cobrindo a boca, horrorizada.
Scott riu genuinamente.
“Custou 2 milhões de dólares.”
“Respingos de tinta caros, então”, corrigiu ela, e ele riu mais.
A química era inegável, crescendo a cada conversa e sorriso compartilhado. Quando chegaram ao final da galeria, Penélope estava muito consciente da proximidade dele.
Scott parou antes de abrir a porta do carro, virando-se para encará-la sob a luz suave dos postes.
“Posso fazer uma coisa?”, perguntou ele, com a voz baixa e carregada de emoção.
“O quê?”
Em vez de responder, Scott se inclinou lentamente, dando-lhe tempo para se afastar, e então seus lábios tocaram os dela em um beijo suave, hesitante e absolutamente perfeito. Durou segundos, mas quando ele se afastou, Penélope estava sem fôlego.
“Posso fazer isso de novo?” Scott perguntou, com a testa encostada na dela.
"Por favor", ela sussurrou.
Quando ele a beijou novamente, foi com mais certeza, e isso fez com que o mundo dela se resumisse apenas aos dois.
Parte 3
Desta vez, Posy não teria a chance de reescrever a história.
O jantar em família começou tenso desde o momento em que se sentaram à mesa de jantar de Henrietta, com o aroma do frango assado que ela havia preparado pairando no ar enquanto Taylor servia o vinho tinto que havia trazido como sua contribuição para a refeição.
Posy havia chegado alguns minutos atrasada, vestindo um terno caro demais para um simples jantar em família. O jeito como ela olhou para Penelope quando entrou já prenunciava que a noite não terminaria bem.
"Então", disse Posy finalmente, cortando o frango em seu prato com movimentos precisos e controlados demais para serem casuais. "Ouvi rumores interessantes sobre você e Scott Ferrari, Penelope. Taylor mencionou algo sobre vocês dois estarem namorando."
Taylor quase se engasgou com o vinho, e Penelope viu o exato momento em que percebeu que tinha falado demais durante uma conversa aparentemente inocente com a irmã mais velha.
"Eu só mencionei que eles tinham saído algumas vezes", disse Taylor na defensiva. "Não achei que seria um problema."
"Problema?", repetiu Posy, a voz subindo uma oitava enquanto deixava os talheres caírem com tanta força que o prato tilintou alto demais no silêncio tenso. "A Penelope está claramente usando o Scott para me atingir, para me humilhar depois daquele episódio ridículo em que ele resolveu fazer um escândalo público me envergonhando."
Henrietta colocou o garfo na mesa com cuidado deliberado, olhando para as três filhas com crescente confusão.
"Ou talvez", disse ela com a voz calma que usava quando começava a perder a paciência, "o Scott realmente goste da Penelope, e eles estejam construindo um relacionamento genuíno."
“Impossível”, Posy praticamente cuspiu as palavras, o rosto vermelho de raiva que vinha se acumulando desde a noite do baile de gala beneficente. “Ela nem se veste bem. Como alguém como Scott Ferrari ia querer alguém como ela quando poderia ter—”
“Porque você deu a ela aquele vestido horrível”, interrompeu Taylor, cuja paciência finalmente se esgotou. “Você escolheu aquela coisa brega de propósito para humilhar a Penelope na frente de todo mundo, Posy.”
O silêncio que se abateu sobre a mesa foi absoluto.
e pesada como chumbo derretido. Henrietta se virou lentamente para Taylor, depois para Penelope e, por fim, para Posy, com uma expressão que Penelope raramente vira no rosto da mãe.
"O quê?", perguntou Henrietta, com a voz perigosamente baixa.
Então Taylor contou tudo, as palavras jorrando em uma torrente que não podia mais ser contida. Ela falou sobre o horrível vestido marrom que Posy lhe dera de presente, sobre como ordenara que Penelope tirasse os brincos e a maquiagem, sobre a humilhação deliberada na festa, quando Posy a isolou e depois proferiu aquelas palavras cruéis perto do bufê.
Cada detalhe revelado por Taylor endurecia ainda mais a expressão de Henrietta, e Penelope viu o momento em que a mãe finalmente compreendeu a extensão do que vinha acontecendo há anos sem que ela percebesse.
"Você humilhou sua irmã", disse Henrietta, olhando para Posy com uma mistura de choque e decepção pior do que qualquer raiva poderia ser. "Intencionalmente. Conscientemente."
Posy tentou se recompor. Ela tentou resgatar as justificativas que havia preparado exatamente para aquele momento.
“Ela não pertencia àquele lugar”, começou, com uma voz que tentava soar firme, mas acabou na defensiva. “Aquele era o meu mundo. Meus contatos profissionais. Minha reputação em jogo. Eu só estava—”
“Ela é sua irmã”, interrompeu Henrietta, batendo com a mão na mesa com tanta força que os pratos saltaram. “Família, Posy. Como você pôde fazer isso com a sua própria família?”
Então foi como se algo dentro de Posy tivesse se quebrado completamente. Anos de ressentimento cuidadosamente reprimido explodiram em palavras carregadas de dor e raiva antiga.
“Família que sempre me escolhia por último”, gritou ela, lágrimas começando a rolar por seu rosto impecavelmente maquiado. “Todos os garotos de quem eu gostava preferiam a Penelope. Todos os namorados que eu tentei manter acabavam olhando para ela em vez de para mim. Papai sempre dava mais atenção a ela. Sempre achava as piadas dela engraçadas. Sempre a defendia quando brigávamos. E você.”
Posy apontou para Henrietta com um dedo trêmulo.
“Você sempre ficava do lado dela quando a gente discutia. Sempre me culpava por tudo que dava errado entre nós. Passei a vida inteira sendo a irmã má, enquanto a Penélope era a queridinha de todo mundo sem nem tentar.”
Henrietta estava pálida, processando as palavras com uma dor evidente estampada no rosto.
“Porque você era cruel, Posy”, respondeu com a voz embargada. “A Penélope nunca fez nada para merecer o tratamento que você dava a ela. Eu defendia quem estava sendo machucado. Eu não tinha favoritos.”
As revelações continuaram caindo como bombas sobre a mesa de jantar, preparada com tanto cuidado. Penélope permaneceu em silêncio, sentindo o peso de anos de dinâmica familiar disfuncional finalmente exposto à luz crua e dolorosa.
Henrietta chorava agora, percebendo que não havia notado o abuso sutil que acontecia há tanto tempo, enquanto Posy soluçava com a maquiagem borrada e toda a sua compostura construída completamente destruída.
Penelope saiu do jantar mais cedo naquela noite, incapaz de suportar mais daquele confronto emocional.
Alguns dias depois, a situação piorou de maneiras que ela não havia previsto. Scott a convidou para jantar em um restaurante chique no centro da cidade, o tipo de lugar com um sommelier dedicado e um cardápio sem preços, porque se você precisasse perguntar, não deveria estar comendo lá. Penelope estava usando um dos belos vestidos que Scott insistira em comprar para ela depois de muita discussão, à qual ela finalmente cedeu, aceitando-os como empréstimos.
Eles estavam no meio da sobremesa quando Posy apareceu do nada, materializando-se ao lado da mesa com uma expressão desesperada que contrastava violentamente com o impecável terno que vestia.
“Scott”, disse ela, sem sequer olhar na direção de Penelope, com a voz urgente e forçadamente profissional. “Precisamos conversar sobre assuntos importantes que não podem esperar.”
Scott colocou o garfo na mesa com cuidado deliberado e, quando olhou para Posy, sua expressão era tão gélida que Penelope sentiu a temperatura ao redor deles cair vários graus.
“Não temos negócios, Posy”, disse ele com uma voz que não admitia discussão. “Nunca tivemos e nunca teremos.”
“Mas Scott”, Posy tentou continuar, o desespero tornando-se mais evidente à medida que percebia que estava perdendo o controle da situação. “Penelope não é quem você pensa que ela é. Ela é—”
Scott ergueu a mão, interrompendo-a no meio da frase, e o gesto foi tão autoritário e definitivo que Posy parou de falar imediatamente.
“Pare”, ordenou ele com aquela voz de CEO acostumada a ser obedecida sem questionamentos. “Não me interessa absolutamente nada do que você vai dizer. Eu conheço a Penelope. Eu conheço você. E eu a escolho. Sempre a escolherei em qualquer situação, contra qualquer pessoa. Agora saia antes que eu chame a segurança para expulsá-la do restaurante.”
Posy ficou imóvel por um momento que pareceu se estender infinitamente, seu rosto passando por uma série de expressões que incluíam choque, humilhação e uma raiva impotente. Então ela se virou e saiu, praticamente correndo do restaurante com o seu oi
O som dos saltos altos batendo ruidosamente no chão de mármore.
Penelope tremia quando Posy desapareceu, as mãos cerradas no colo enquanto tentava controlar a adrenalina que corria em suas veias.
"Você está bem?" Scott perguntou imediatamente, a dureza sumindo de sua voz e sendo substituída por genuína preocupação enquanto segurava a mão dela por cima da mesa.
"Ela está tão perdida", Penelope sussurrou, ainda olhando na direção para onde Posy tinha ido.
Mesmo depois de tudo o que aconteceu, Penelope ainda sentia compaixão pela irmã que passou tantos anos a magoando por causa de suas próprias inseguranças não resolvidas.
As semanas que se seguiram foram estranhas e maravilhosas ao mesmo tempo, com Scott integrando Penelope completamente à sua vida de maneiras que a deixavam atordoada. Ele a levava a eventos sociais onde ela usava os belos vestidos que ele insistia em pagar, pelos quais ela finalmente havia parado de discutir. Ele a apresentou ao seu círculo de amigos e contatos profissionais, que a tratavam com uma gentileza genuína que constantemente a pegava de surpresa.
Todos pareciam adorar a naturalidade que ela trazia, o jeito como ria das próprias piadas sem graça e fazia observações honestas que quebravam a pretensão habitual daqueles ambientes.
Mas Posy via tudo pelas redes sociais, que checava compulsivamente. Ela via fotos de Penelope e Scott sorrindo juntos em eventos elegantes, via o jeito como ele olhava para Penelope nas imagens, como se ela fosse a única pessoa no mundo que importasse.
O ciúme que já consumia Posy há anos chegou a um ponto crítico, e ela tomou uma decisão drástica que ninguém havia previsto. Ela aceitou uma transferência internacional para a filial de Londres da empresa, um cargo que exigia um compromisso mínimo de dois anos.
Henrietta organizou um jantar em família para discutir o anúncio repentino, e a atmosfera à mesa estava carregada de tudo o que havia sido dito e tudo o que permanecia não dito entre elas.
"Por que tão repentino?", perguntou Henrietta, olhando para Posy com uma mistura de confusão e preocupação maternal. "Você sempre falou em querer ficar aqui, construir sua carreira na sede."
“É uma oportunidade profissional incrível”, respondeu Posy com uma voz cuidadosamente neutra.
Então, ela olhou diretamente para Penelope, e algo em sua expressão se quebrou um pouco.
“E eu preciso me distanciar de tudo. De todos. De mim mesma.”
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