—Você me deixou na plataforma em menos de uma hora, Dom Aurélio. Diante de toda a cidade.
—Eu me arrependi, isso é diferente.
—Não. Você escolheu. E eu sobrevivi à sua escolha.
Aurélio apertou os papéis com força.
—A agência pode exigir indenização.
—Então iremos ao juiz —disse Amalia—. Mas nunca mais diga «essa mulher», como se eu fosse algum tipo de mula comprada numa feira.
As pessoas murmuraram. Aurélio corou.
—Eu tenho esse direito.
Então Thomas deu um passo à frente. Sua voz era baixa, mas todos a ouviram.
—Não se trata dela.
Eles compareceram ao tribunal municipal naquele mesmo dia. Metade da cidade os seguiu discretamente, e a outra metade, sem qualquer pudor.
O juiz, Dom Anselmo Quiroga, leu os documentos através de seus óculos redondos. Ele pigarreou.
«Aqui existem taxas de processamento, não um contrato de casamento obrigatório. Nenhuma mulher pode ser forçada a um casamento por correspondência. Até um burro de chapéu sabe disso.»
Alguns riram.
Aurélio perdeu a cor.
—Mas eu paguei.
Tomás tirou um saco de moedas e notas. Eram suas economias de dois anos, guardadas para comprar uma oficina maior.
Ele os colocou sobre a mesa.
—Há o custo do procedimento e a passagem. Não resolve nada. Apenas elimina a última desculpa.
Amália olhou para ele, surpresa.
« Thomas…
Ele não desviou o olhar de Aurélio.
—Pegue e vá embora.
Aurélio olhou para o dinheiro, depois para Amália, depois para as pessoas reunidas à porta. Compreendeu que já não havia qualquer situação em que pudesse sair como um homem respeitável.
Ele pegou o dinheiro com a mão trêmula e saiu.
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