"Eu entendo."
Ela fechou os olhos novamente, o rosto se contorcendo levemente como se tentasse evocar algo que se recusava a voltar.
Ele a observou por um longo tempo. Então se virou e caminhou até a janela, as mãos nos bolsos, os ombros pesados.
Ela havia esquecido.
Esquecido o riso, o chá, os olhares furtivos, o beijo.
Esquecido ele.
Mas Damian sabia de uma coisa com certeza.
Ele não iria embora.
Não agora.
Não de novo.
A chuva voltou naquela noite, suave e rítmica contra os vidros das janelas do hospital. Ella estava deitada na cama, olhos abertos, encarando o teto. Seu corpo se sentia mais forte a cada dia, mas sua mente permanecia nebulosa, encoberta, como se alguém tivesse fechado uma cortina sobre o último mês de sua vida.
Os médicos disseram para ela não forçar. As memórias voltariam quando estivessem prontas.
Mas ela odiava o vazio. Odiava a estranha dor no peito que não conseguia nomear. Odiava o jeito como seu coração palpitava sempre que Damian entrava no quarto, e depois afundava novamente quando ela não conseguia se lembrar por quê.
Ele tinha sido gentil. Sempre calmo. Sempre por perto.
No entanto, havia uma tristeza em seus olhos cada vez que ele a olhava, como se estivesse esperando por algo ou lamentando algo já perdido.
Naquela noite, depois que as enfermeiras diminuíram as luzes e a deixaram sozinha, ela notou algo incomum na pequena mesa ao lado da cama.
Uma sapatilha de balé.
Não era nova.
Velha. Gasta.
O cetim estava desfiado, a ponta amassada por anos de uso.
Ela a pegou delicadamente, passando os dedos pelas bordas.
Faltou-lhe a respiração.
Parecia familiar.
Ela fechou os olhos, apertando a sapatilha contra o peito.
O sono veio rápido.
Com ele, um sonho.
Ela estava dançando.
O chão estava empoeirado. O quarto era pequeno, iluminado pelos raios do sol da tarde. Crianças sentavam-se em círculo, batendo palmas enquanto ela girava. Ela usava um collant simples, os cabelos dourados presos para trás. Seus pés estavam cheios de bolhas, mas seu coração estava leve. Um menino estava parado num canto, observando-a com olhos arregalados e silenciosos.
Magra.
Quieta.
Sozinha.
Ela dançou em sua direção, estendeu a mão e sorriu. Ele não a apertou. Apenas a encarou, como se...
Ela era como um sonho.
A imagem mudou.
Ela estava ajoelhada, colocando a sapatilha de balé nas pequenas mãos do menino.
Então ela ouviu a própria voz.
"Se você conseguir sair daqui, prometa que vai ajudar alguém do jeito que estou te ajudando."
O sonho se dissipou na escuridão.
Ella sentou-se na cama, ofegante, com lágrimas escorrendo pelo rosto.
Não era um sonho.
Era real.
Ela jogou o cobertor para o lado, apertou a sapatilha de balé com força e saiu correndo do quarto, ignorando a enfermeira que a chamava.
A chuva encharcou seu suéter enquanto ela descia cambaleando os degraus do hospital e entrava no carro que a esperava, do qual ela se lembrava apenas vagamente. O motorista tentou impedi-la, mas ela insistiu, com os olhos faiscando.
"Leve-me até Damian Hawthorne, por favor."
Damian estava parado na chuva, olhando da sacada de sua cobertura. Ele não conseguira dormir. Seu peito pesara a noite toda, atormentado pelo silêncio em sua voz, pelo vazio em seu olhar.
Ele não lhe contara.
Não a forçara a se lembrar.
Porque o amor, o amor verdadeiro, nunca exige.
Ele espera.
Atrás dele, o elevador tocou.
Ele se virou.
Ella estava ali, encharcada até os ossos, os cabelos grudados no rosto. A sapatilha de balé estava em sua mão trêmula.
Seus lábios se entreabriram, mas nenhuma palavra saiu a princípio.
Então, com a voz embargada pela admiração e algo próximo à incredulidade, ela perguntou: “O menino do orfanato. Era você, não era?”
Damian não se moveu.
Não disse nada.
Mas o olhar em seus olhos — suave, quebrado, aberto — era a única resposta de que ela precisava.
Ella deu um passo à frente, suas lágrimas se misturando à chuva.
“Você se lembrou de mim o tempo todo.”
Ele assentiu uma vez.
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