Em outra noite, num leilão no terraço, o vento ficou forte. Ela esfregou os braços e, antes mesmo de falar, Damian já estava tirando o paletó e colocando-o delicadamente sobre seus ombros.
Ela olhou para cima.
"Você não precisava."
Ele já estava andando à frente.
"Vamos. Você vai pegar um resfriado."
Ele nunca a tocava desnecessariamente. Mesmo assim, quando caminhavam por entre a multidão, a mão dele repousava levemente na sua lombar, guiando, dando apoio, protegendo. Cada gesto era breve e educado, mas natural demais. Consciente demais.
Ela começou a notá-lo mais.
O jeito como ele afrouxava a gravata exatamente dois botões depois de cada evento. Como o maxilar dele se tensionava quando alguém sussurrava algo cruel sobre o passado dela. Como ele nunca soltava a mão dela primeiro.
Lentamente, perigosamente, ela começou a se perguntar se tudo aquilo era real. Então ela se lembraria de Charles. Do charme dele, das promessas e de como ele a abandonou tão facilmente.
Ela acreditara no amor um dia.
Quase o amor a destruiu.
Ela não cometeria esse erro novamente.
Numa noite chuvosa, depois de uma longa consulta, Ella voltou para a cobertura de Damian. A cidade lá fora estava borrada pelas gotas de chuva. Sua cabeça girava. Seu corpo tremia de exaustão.
Ela mal conseguiu chegar ao sofá antes de desabar.
Damian apareceu em segundos.
“O que aconteceu?”, perguntou ele, ajoelhando-se ao lado dela.
“Não sei”, murmurou ela fracamente. “Só estou tonta.”
Ele tocou sua testa.
“Está quente. Você está com febre.”
“Vou ficar bem”, insistiu ela, tentando se sentar. “Só preciso—”
Mas ele já estava se mexendo, com o telefone na mão. Então parou, olhou para ela novamente e o colocou de lado.
Ins
Em vez de chamar sua assistente, ele arregaçou as mangas e foi até a cozinha.
Vinte minutos depois, voltou com uma tigela de mingau de arroz, com o vapor subindo em espirais.
"Coma", disse ele simplesmente.
Ela piscou. "Você fez isso?"
Ele assentiu. "Eu assisti a um vídeo."
Seus lábios se curvaram levemente. "Com esse seu terno de 6 mil dólares?"
Ele deu de ombros. "Troquei a gravata."
Ajudou-a a se sentar, enrolou um cobertor em seus ombros e a alimentou com pequenas colheradas quando suas mãos tremeram demais para segurar a tigela. O calor se espalhou lentamente por ela e, embora estivesse cansada demais para falar, seu peito doía ao vê-lo.
Aquele homem, que não precisava se importar, se importava.
Ele ficou ao lado dela a noite toda, umedecendo sua testa com um pano frio e verificando sua temperatura a cada hora.
Quando o amanhecer surgiu por entre as cortinas, Ella se mexeu e abriu os olhos.
Damian dormia no sofá ao lado dela, ainda de camisa e calça, a cabeça inclinada para trás, o cansaço estampado no rosto.
Ela o observava em silêncio.
Ninguém jamais havia ficado ali antes.
Nem por causa da dor. Nem por causa da febre. Nem por causa do medo. Nem mesmo quando ela estivera mais fragilizada.
Talvez tivesse começado como fingimento.
Mas naquela noite, naquele cuidado, era real.
Algo que parecia perigosamente próximo do amor.
Ella entrou silenciosamente no escritório de Damian, ainda segurando a xícara de chá que ele havia preparado para ela. O apartamento estava silencioso naquela noite, o zumbido suave da cidade lá embaixo filtrando-se pelas grandes janelas.
Ela nunca havia passado muito tempo naquele cômodo antes. Não era frio ou estéril como ela imaginava que seria o escritório de um bilionário. Era aconchegante. Habitado. Livros alinhavam as prateleiras. Um toca-discos estava em um canto.
Na parede acima da escrivaninha, pendia um pequeno quadro.
Ele chamou sua atenção imediatamente.
Ela se aproximou, franzindo a testa.
Era uma fotografia antiga, um pouco desbotada. Uma menina com um collant simples estava no meio de um grupo de crianças, os braços graciosamente estendidos em pleno giro. Seus cabelos dourados estavam presos em um coque frouxo, o rosto radiante e concentrado. As crianças ao redor batiam palmas e riam.
O cenário era familiar.
Um ginásio desgastado. Azulejos rachados. Uma barra improvisada na parede.
Ella sentiu uma estranha pressão no peito.
Ela se inclinou para frente.
Era ela.
Mais jovem. Mais radiante. Cheia de sonhos.
A foto tinha sido tirada em um daqueles dias de voluntariado em que ela visitava o orfanato para ensinar balé. Ela nem sabia que alguém estava tirando fotos. Não via aquela foto há anos.
Talvez nunca.
Mas Damian a tinha.
Ela se virou, segurando o porta-retratos delicadamente nas mãos, e o encontrou parado na porta, observando-a.
“Esta sou eu”, disse ela baixinho.
Ele assentiu.
“Como você conseguiu isso?”
Damian entrou na sala, com uma expressão indecifrável.
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