Meu avô manteve um número de telefone escondido na carteira por mais de trinta anos — quando finalmente liguei para ele após sua morte, a voz do outro lado da linha me fez congelar

A primeira coisa que notei foi o quanto tudo era arrumado.

 

Um jornal dobrado na mesinha lateral, aberto no caça-palavras, com três pistas preenchidas e o resto em branco. Uma caneca de café lavada, virada de cabeça para baixo sobre um pano de prato ao lado da pia. Uma estante organizada por cores.

 

E então vi as fotografias na pequena mesa perto do corredor.

 

Meu avô, Robin, mais jovem do que eu jamais tinha visto, ao lado de uma menina de casaco vermelho. Ela tinha talvez quatro anos. O mesmo sorriso sem dentes da foto na carteira dele.

 

Peguei a moldura e olhei a data no verso.

 

A menina era jovem demais para ser eu. Os anos não batiam.

 

Deixei a foto de lado e entrei mais na casa.

 

E então parei completamente.

 

Ao longo da parede do fundo, numa prateleira baixa cheia de álbuns, havia fotografias minhas.

 

Minha feira de ciências na escola, aos nove anos, ao lado de um vulcão de papel machê que eu tinha terminado na madrugada anterior. Meu sétimo aniversário, quando o vovô me deixou escolher qualquer sabor de bolo. Andando de bicicleta no estacionamento da biblioteca.

 

Peguei a foto do estacionamento da biblioteca e minhas mãos ficaram dormentes.

 

Ao fundo, do outro lado da rua, o vidro de uma caminhonete estacionada refletia um homem parado, imóvel, observando. O mesmo homem cuja foto estava na estante dentro da casa.

 

— Quem é você, Simon? — sussurrei.

 

 

 

O hospital ficava a vinte minutos dali, e eu dirigi cada um deles em silêncio.

 

A enfermeira na recepção me indicou o quarto 14 sem muitas perguntas depois que expliquei que era da família. Eu não tinha planejado dizer isso. Simplesmente saiu.

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