Ela lia histórias para um chefe da máfia em coma todas as noites — até que ele agarrou seu pulso e sussurrou seu nome.

Vinte minutos depois, a porta se abriu.

Leo Rossi entrou vestindo um sobretudo escuro, com a neve derretendo em seus ombros. Olhou ao redor do quarto, o olhar percorrendo Clara como se ela fosse um móvel, antes de pousar na cama.

A silhueta coberta pelo cobertor.

O monitor fixo.

O silêncio.

Seu sorriso era feio.

"Então está feito", disse Leo.

Clara apertou o livro com tanta força que seus nós dos dedos doeram.

Leo tirou as luvas de couro, dedo por dedo.

"Vejo que você sobreviveu à noite, enfermeira. Arthur deve ter sido honesto sobre isso."

Arthur. O assassino.

Clara não disse nada.

Leo caminhou até o pé da cama.

"Não fique tão horrorizada. Isso foi misericórdia. Nicholas já foi um titã. Deixá-lo assim foi cruel. A família precisava de força. Chicago precisava de ordem."

Uma voz veio das sombras.

"Foi mesmo?"

Leo congelou.

Seu rosto estava tão pálido que parecia esculpido em cera.

A cortina que impedia a passagem da luz se moveu.

Nicholas se virou para a frente.

A luz do abajur iluminou suas bochechas encovadas, seus olhos escuros e a cicatriz na têmpora. Ele parecia magro, abatido, quase morto.

Mas ninguém naquele quarto o confundiu com fraco.

Leo cambaleou para trás.

"Nicholas."

Matteo saiu de trás da porta e pressionou a arma contra a nuca de Leo.

"Mãos para cima."

Leo as ergueu lentamente.

"Matteo", sussurrou. "Você deveria estar—"

"Morto?", perguntou Matteo. "Você deveria contratar homens melhores."

Nicholas parou a poucos passos de Leo.

Por um longo momento, ele simplesmente o encarou.

"Eu ouvi você", disse Nicholas. "Por dois meses, eu ouvi você."

A boca de Leo tremeu.

“Chefe, escuta—”

“Eu ouvi você desviando cargas do cais. Eu ouvi você cortejando capitães. Eu ouvi você dizendo que minha vida era um incômodo.”

“Nicholas, a família estava se desfazendo. Os colombianos estavam avançando para o sul. Os russos estavam testando Cicero. Alguém precisava demonstrar força.”

“Você demonstrou ambição”, disse Nicholas. “E traição.”

Os olhos de Leo se voltaram para Clara.

O desespero se intensificou em seu rosto.

“Ela é uma testemunha”, disse ele rapidamente. “Você acha que ela não vai falar? Você acha que vale a pena arriscar tudo por uma enfermeira?”

A expressão de Nicholas mudou.

O ambiente ficou mais frio.

“Não olhe para ela.”

Leo engoliu em seco.

“Nicholas—”

“Não diga o nome dela. Não respire na direção dela. Você perdeu o direito de falar sobre qualquer coisa humana quando mandou um assassino para um quarto de doente.”

Pela primeira vez, Clara viu o medo quebrar Leo Rossi completamente.

Ele começou a implorar.

Implorou a Nicholas. Implorou a Matteo. Invocou lealdade, pressão, dinheiro, história, irmandade.

Nicholas ouviu sem se mexer.

Então disse: “Levem-no.”

Matteo agarrou Leo pela gola.

“O armazém do rio?” perguntou Matteo.

O olhar de Nicholas permaneceu fixo em Leo.

“Não.”

Matteo fez uma pausa.

Clara olhou para cima.

Até Leo piscou.

Nicholas recostou-se na cadeira de rodas, exausto, pálido, mas inabalável.

“Acordei ouvindo O Conde de Monte Cristo”, disse ele baixinho. “Uma história sobre um homem que acreditava que a vingança o tornaria completo.”

Leo respirou fundo pelo nariz.

Nicholas voltou os olhos para Clara.

“E todas as noites, enquanto ela lia, comecei a entender algo que Dantès aprendeu tarde demais.”

A garganta de Clara se apertou.

Nicholas olhou para Matteo.

"A vingança é uma prisão se você constrói toda a sua vida em torno dela."

Matteo baixou o queixo levemente.

"O que você quer que seja feito?"

"Todos os capitães no armazém do rio até o amanhecer", disse Nicholas. "Leo confessa. Em vídeo. Pelo atentado contra a minha vida, pelos assassinatos que ele ordenou, pelos homens que ele pagou lá dentro."

“Este hospital. Então as provas vão para onde precisam ir.”

Matteo franziu a testa.

“Para a polícia?”

“Para os promotores federais”, disse Nicholas. “Não para as delegacias locais. Nem para ninguém da região.”

Leo soltou uma risada histérica.

“Você é louco. Vai se queimar também.”

Nicholas o encarou.

“Sim.”

A palavra o atingiu com mais força do que um tiro.

Clara ficou paralisada.

Matteo olhou para o chefe como se tivesse entendido errado.

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