Nicholas continuou, com a voz baixa e rouca.
“Eu construí um reino que me colocou nesta cama. Confiei em lobos porque eu era um. Chamei isso de poder. Era podridão.”
Leo balançou a cabeça.
“Você não vai fazer isso.”
Nicholas olhou para Clara novamente.
Ela não sabia o que ele estava pedindo.
Perdão?
Permissão?
Testemunha?
Seja lá o que fosse, ela assentiu levemente.
Nicholas voltou-se para Leo.
“Eu morri neste quarto por seis meses”, disse ele. “O homem que acordar poderá escolher o que sobreviverá.”
Matteo arrastou Leo para fora.
Quando a porta se fechou, Clara e Nicholas ficaram sozinhos.
A adrenalina a abandonou de repente. Seu corpo se curvou para a frente. Ela pressionou as duas mãos contra o rosto e soluçou, não de forma delicada, nem silenciosamente, mas com a força bruta de uma mulher que fora corajosa muito além do seu limite.
A cadeira de rodas rangeu.
Nicholas aproximou-se.
“Sinto muito”, disse ele.
Clara riu uma vez em meio às lágrimas.
“Você continua dizendo isso como se resolvesse alguma coisa.”
“Não resolve.”
“Não. Não resolve.”
Ele ficou em silêncio.
Então disse: "Ele estava certo em uma coisa."
Ela ergueu o olhar.
O rosto de Nicholas estava contorcido de dor, os olhos sombrios, o corpo mal o sustentando.
"Você é uma testemunha", disse ele. "E estar perto de mim a coloca em perigo."
Clara enxugou o sangue e as lágrimas do rosto.
"Estou em perigo desde a primeira noite em que assinei aquele contrato."
"Amanhã, Matteo lhe trará dinheiro. O suficiente para pagar todas as dívidas. O suficiente para desaparecer. Providenciarei documentos. Você poderá recomeçar em algum lugar quente. Arizona. Califórnia. Até mesmo na Itália, se quiser poesia."
"Você acha que eu quero dinheiro sujo?"
Uma expressão de mágoa cruzou seu rosto.
"Não. Acho que você merece liberdade."
Clara se levantou lentamente.
Seus joelhos tremiam, mas sua voz não.
"Liberdade não é uma maleta, Nicholas. E não é fugir para que homens ricos continuem decidindo quanto vale a minha vida."
Os olhos dele examinaram os dela.
"O que você quer?"
"Quero que você viva", disse ela. "Não como um fantasma. Não como um monstro. Como um homem que precisa responder pelo que construiu."
Nicholas desviou o olhar.
"Isso pode me custar tudo."
"Então talvez tudo tenha sido caro demais."
"Então talvez tudo tenha sido caro demais." As palavras pairaram entre eles.
Por um instante, Clara pensou que ele pudesse se tornar frio. Recuar para trás do velho Nicholas Castiglione, o rei do submundo que quebrava pulsos e comandava homens armados.
Em vez disso, ele fechou os olhos.
E assentiu.
Ao amanhecer, a tempestade havia passado.
Chicago despertou sob um céu da cor do aço. Carros de reportagem se reuniram em frente ao Saint Jude antes do meio-dia, alertados por rumores de uma tentativa de assassinato no quarto andar privativo. Ao anoitecer, agentes federais invadiram três armazéns, dois escritórios de transporte e o apartamento de Leo Rossi na Gold Coast.
A versão oficial veio lentamente.
Uma conspiração criminosa. Segurança corrupta do hospital. Tentativa de assassinato. Crime organizado.
O nome de Nicholas Castiglione aparecia em todos os lugares.
Alguns o chamavam de vítima. Outros o chamavam de criminoso que se voltava contra outros criminosos para se salvar.
Clara recusou todas as entrevistas.
Por três semanas, Nicholas permaneceu sob proteção federal em uma instalação médica de segurança máxima nos arredores da cidade. Ele deu depoimentos. Entregou documentos. Ele assinou confissões que enfureceram seus advogados e deixaram os promotores desconfiados.
Ele não fingiu inocência.
Isso foi o que mais surpreendeu Clara.
Quando ele estava forte o suficiente para ficar sentado por mais de uma hora, pediu para vê-la.
Ela quase não foi.
Então, encontrou O Conde de Monte Cristo em sua mala, a lombada rachada, as páginas marcadas por seis meses de noites em claro.
Ela foi.
Nicolau estava em um quarto de reabilitação com vista para um pátio cinzento. Ele havia emagrecido, mas a cor havia retornado ao seu rosto. Agora, caminhava com uma bengala, lentamente, com raiva, recusando ajuda até que um fisioterapeuta ameaçou sedá-lo por despeito.
Quando Clara entrou, ele parou.
Pela primeira vez, Nicolau Castiglione não tinha nenhuma ordem pronta.
“Oi”, disse Clara.
Seus lábios suavizaram.
“Oi.”
Sobre a mesa ao lado dele estava o livro dela.
“Você o guardou?”, perguntou ela.
“Você o deixou no quarto 412.” “Pensei que o FBI tivesse levado tudo.”
“Eles tentaram.” Um leve sorriso surgiu em seu rosto. “Matteo negociou.”
Clara sentou-se à sua frente.
Por um tempo, nenhum dos dois falou.
Então Nicholas disse: “Leo fez um acordo.”
“Ótimo.”
“Ele passará o resto da vida na prisão.”
“Ótimo também.”
“Matteo está vivo.”
“Isso é melhor.”
Nicholas a observou.
“E você?”
Clara olhou pela janela. O pátio lá embaixo estava vazio, exceto por uma árvore teimosa que resistia ao inverno.
“Eu pedi demissão de Saint Jude.”
Seu maxilar se contraiu.
“Por minha causa.”
“Porque finalmente percebi que o triplo salário às vezes é apenas uma gaiola mais bonita.”
Ele aceitou isso.
“O que…”
“O que você vai fazer?”
“Terminar meu programa de enfermagem. Talvez trabalhar em algum lugar normal. Uma clínica. Pediatria. Um lugar onde as pessoas tragam cupcakes quando estão agradecidas, em vez de assassinos.”
Nicholas riu baixinho, depois fez uma careta.
O som mudou algo no ambiente.
Ele ainda era perigoso. Clara não era ingênua o suficiente para fingir o contrário. Homens como Nicholas não se tornavam inofensivos só porque sobreviveram a um coma e leram literatura clássica.
Mas ele estava tentando ser honesto.
Isso importava.
Ele estendeu a mão em direção ao livro, mas parou antes de tocá-la.
“Eu te devo a minha vida.”
“Você deve a si mesma uma vida diferente.”
“Estou trabalhando nisso.”
“Ótimo.”
Seus olhos se ergueram para os dela.
“Nos veremos de novo?”
Clara respirou fundo.
Este era o momento em que a velha história a teria convidado a correr para a escuridão por amor. A ficar ao lado do homem perigoso e chamar o perigo de destino.
Mas Clara passara tempo demais no quarto 412, ouvindo máquinas fingirem que sobreviver era o mesmo que viver.
Ela queria mais do que sobreviver.
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