Mercedes olhou para o espaço vazio onde suas mãos deveriam estar. "Na noite do acidente, Samuel estava dirigindo. Eu estava com raiva dele. Estávamos discutindo sobre Rodrigo."
Diego parou de andar de um lado para o outro.
Mercedes continuou, agora com a voz mais baixa. "Samuel descobriu transferências suspeitas. Pequenas no começo, depois maiores. Fraude de fornecedores, contratos superfaturados, negócios imobiliários desviados por meio de empresas que não existiam oficialmente até Rodrigo precisar delas. Samuel queria ir à polícia. Eu queria resolver isso em família."
"O que aconteceu?"
"Um caminhão cruzou a faixa central em uma estrada chuvosa perto de Santa Fé. É o que diz o boletim de ocorrência." Ela ergueu o olhar. “Mas o motorista desapareceu depois que recebeu alta do hospital. A transportadora faliu em poucas semanas. O processo do seguro sumiu. E toda vez que eu chegava perto de encontrar respostas, alguém ao meu redor ou pedia demissão, mentia ou morria.”
Diego sentiu um arrepio percorrer seu corpo. “Você acha que Rodrigo causou o acidente?”
“Acho que Samuel morreu com provas na pasta. E acho que Rodrigo passou dez anos se certificando de que eu nunca encontrasse o que restou.”
O fogo estalou suavemente.
Diego sentou-se à sua frente, não mais com raiva dela, mas com medo por ambos. “Por que você não me disse isso antes?”
“Porque ontem à noite eu precisava saber se você conseguiria sentar ao lado de uma mulher assustada sem se aproveitar dela. Hoje eu precisava saber se você fugiria quando Rodrigo mostrasse os dentes.”
“E agora?”
Mercedes olhou para ele com uma coragem exausta. “Agora eu preciso saber se você vai me ajudar a encontrar o que meu marido morreu tentando proteger.”
Diego deveria ter dito não. Qualquer homem sensato teria dito. Ele tinha pais para proteger, dívidas para pagar e uma vida que já era difícil o suficiente antes da corrupção bilionária entrar nela.
Mas ele pensou na fotografia de Samuel. Pensou em Mercedes lendo o medo em cada som à noite. Pensou em Rodrigo sorrindo enquanto ameaçava sua família.
"Eu ajudo", disse Diego. "Mas vamos fazer do meu jeito também."
Mercedes ergueu uma sobrancelha. "E qual é o seu jeito?"
"Vamos parar de jogar na defensiva."
O primeiro passo foi pequeno. Diego pediu acesso a todos os registros antigos de manutenção do ano do acidente. Mercedes pareceu confusa até que ele explicou que os ricos escondiam crimes em contratos, mas os trabalhadores escondiam a verdade em faturas, registros de reparos e anotações de construção que nenhum executivo se dava ao trabalho de ler.
Por dois dias, Diego trabalhou no arquivo do porão. Ele leu caixas de relatórios de serviço antigos, atualizações de segurança, reparos elétricos e faturas de armazenamento. A princípio, não encontrou nada além de poeira, cortes de papel e a crescente suspeita de que alguém havia apagado os arquivos óbvios há muito tempo.
Então, no final da segunda noite, ele percebeu um padrão. Três semanas após a morte de Samuel, um prestador de serviços particular havia removido um antigo cofre embutido na parede do escritório de Samuel. A nota fiscal indicava que o cofre estava vazio e
danificado. Mas a remoção exigiu dois chaveiros, um cortador de aço e um mensageiro particular.
Diego levou a fatura para Mercedes.
Ela olhou fixamente para ela. "Eu nunca aprovei isso."
"Rodrigo aprovou", disse Diego. "Veja as iniciais."
Mercedes se inclinou para mais perto. Na parte inferior da página, ao lado da linha de autorização, alguém havia escrito R.A.
Seu rosto endureceu. "Escritório de Samuel."
Eles foram para lá imediatamente. O antigo escritório de Samuel havia sido preservado como um santuário, com paredes verde-escuras, cortinas pesadas e prateleiras cheias de livros de arquitetura, mapas antigos e certificados emoldurados. Mercedes raramente entrava lá. Diego podia sentir a tristeza no ar antes mesmo que ela falasse.
"O cofre estava atrás daquele quadro", disse ela, apontando com a cabeça para uma grande paisagem do deserto do Novo México.
Diego removeu o quadro com cuidado. Atrás dele, a parede havia sido reparada e pintada, mas não perfeitamente. Ele passou os dedos pela superfície, sentindo a leve diferença na textura.
Então, agachou-se e examinou o rodapé. Um arranhão fino marcava a madeira perto do canto. Não era do cofre. Era de outra coisa.
"Samuel construiu alguma coisa neste quarto?", perguntou Diego.
Mercedes pareceu surpresa. "A escrivaninha. Ele gostava de trabalhar com madeira."
Diego se virou para a enorme escrivaninha perto da janela. Era antiga, bonita e mais pesada do que o necessário. Ele verificou primeiro as gavetas, depois a parte de baixo e, por fim, os painéis entalhados ao longo do encosto.
Nada.
Mercedes observou em silêncio enquanto Diego empurrava, batia, media e escutava. Ele parecia menos um marido empregado e mais o zelador que sempre fora, aquele que confiava mais em parafusos e dobradiças do que em discursos. Finalmente, seu polegar prendeu em uma saliência entalhada que se moveu meio centímetro para dentro.
Um compartimento secreto se abriu com um clique.
Mercedes prendeu a respiração.
Dentro havia uma pequena chave de latão e um bilhete dobrado, amarelado pelo tempo. Diego não tocou no bilhete a princípio. Havia algo de sagrado nele.
Mercedes inclinou-se para a frente. "Leia."
Diego desdobrou o papel cuidadosamente.
"Meu amor", leu ele, "se você está ouvindo isso na voz de Diego, então eu estava certo sobre ele."
Diego congelou.
Mercedes sussurrou: "O quê?"
Sua garganta apertou, mas ele continuou. "Não sei se sobreviverei ao que encontrei. Rodrigo não está trabalhando sozinho. Os arquivos do Pátio Norte são apenas o começo. Se o cofre sumiu, use a chave da capela. Confie no homem que escolhe a honestidade quando a fome lhe dá uma desculpa para não fazê-lo."
Mercedes olhou para Diego com um choque tão profundo que derrubou todas as barreiras que ainda lhe restavam.
Diego encarou o bilhete. "Como Samuel poderia me conhecer?"
Os olhos de Mercedes se encheram de lágrimas. "Ele não sabia seu nome. Ele deve ter escrito outra versão anos atrás e acrescentado essa frase depois."
“Não”, disse Diego lentamente. “Este bilhete tem a minha voz.”
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