“Nada nesta situação está bem”, respondeu Evelyn. “Mas usaremos os primeiros nomes se isso tornar a tempestade mais amigável.”
Mercedes quase sorriu. Diego gostou de Evelyn imediatamente.
Evelyn colocou uma pasta sobre a mesa. “Rodrigo entrou com um pedido de emergência às 8h12 desta manhã. Ele está solicitando uma avaliação de competência e restrição financeira temporária. Ele alega que seu casamento é uma prova de que você está sendo manipulada por um funcionário.”
Diego sentiu o ar lhe faltar. "Ele agiu tão rápido assim?"
Mercedes não pestanejou. "Ele já tinha tudo preparado."
Evelyn abriu a pasta. "Tem mais. Ele incluiu fotografias."
Ela deslizou várias imagens pela mesa. Diego inclinou-se para a frente e sentiu um frio na barriga. As fotos mostravam-no entrando no quarto de Mercedes na noite anterior, parado ao lado da cadeira dela, segurando a Bíblia. O ângulo dava um ar íntimo, quase predatório, como se ele estivesse pairando sobre uma mulher vulnerável.
Diego sussurrou: "Alguém estava observando de dentro da casa."
Mercedes encarou as fotos por um longo tempo. Seu rosto não mudou, mas algo em seus olhos endureceu. "Então ele ainda tem alguém na minha equipe."
Evelyn se virou para Diego. "Foi isso que você descobriu mais rápido do que esperávamos. Rodrigo quer pintar você como um caçador de fortunas e Mercedes como incapaz. Se um juiz acreditar em pelo menos parte disso, ele pode congelar a autoridade dela por tempo suficiente para assumir o controle da Aranda Holdings."
Diego olhou de Evelyn para Mercedes. “Então por que se casar comigo? Isso facilita a argumentação dele.”
Mercedes ficou em silêncio por um momento. Então disse: “Porque eu precisava de alguém sem laços de sangue com esta família, sem ações na empresa e sem histórico com Rodrigo. Alguém pobre o suficiente para ser subestimado, mas honesto o suficiente para não ser comprado.”
Diego engoliu em seco. “É uma aposta perigosa.”
“Sim”, disse Mercedes. “É mesmo.”
A verdade pairava entre eles como uma arma carregada. Diego havia concordado com um contrato de casamento para pagar as contas médicas da família e impedir que um agiota tomasse a casa de seus pais em El Paso. Ele não havia concordado em se tornar o centro de uma batalha judicial com um homem que parecia disposto a destruir todos em seu caminho.
Mas então ele se lembrou de Mercedes chorando silenciosamente enquanto ele lia a Bíblia. Lembrou-se da voz dela quando disse que sua dignidade valia mais do que o dinheiro dela. E por razões que ele não compreendia totalmente, ir embora de repente lhe pareceu se tornar exatamente o que Rodrigo acreditava ser.
“O que você precisa que eu faça?” Diego perguntou.
Mercedes olhou para ele atentamente. Evelyn também.
"Primeiro", disse Evelyn, "você precisa sobreviver ao almoço."
Naquela tarde, Rodrigo voltou com dois familiares, um médico particular e um consultor de relações públicas que sorria demais. Eles se reuniram na sala de jantar formal sob um lustre que provavelmente custava mais do que todos os caminhões que Diego já havia consertado. Mercedes sentou-se em uma das pontas da mesa, composta e imóvel, enquanto Diego sentou-se ao lado dela, ciente de todos os olhares que o invadiam.
Rodrigo representou o sobrinho preocupado com perfeição. Falou gentilmente. Perguntou a Mercedes se ela havia dormido bem. Perguntou se ela se lembrava de ter assinado os documentos do casamento. Ele até pronunciou o nome de Diego com pena, como se Diego fosse apenas um peão que não entendia o mal que havia causado.
Mercedes respondeu a cada pergunta com uma precisão gélida. "Sim, Rodrigo. Eu me lembro de ter me casado com Diego. Também me lembro de você tentando me declarar incapaz no ano passado, depois que me recusei a vender os imóveis do armazém para a empresa de fachada do seu amigo."
A sala de jantar ficou em silêncio.
O sorriso de Rodrigo permaneceu, mas a tensão ao seu redor aumentou. "Tia Mercedes, é exatamente por isso que estamos preocupados. Você vive inventando teorias da conspiração."
Diego observou os outros. Um primo parecia constrangido. O médico parecia desconfortável. O consultor de relações públicas parou de sorrir por um segundo a mais do que o necessário.
Mercedes se virou para Diego. "Você poderia ler o e-mail?"
A expressão de Rodrigo mudou. "Que e-mail?"
Evelyn tirou uma página impressa de sua pasta e a colocou na frente de Diego. Mercedes assentiu para que ele continuasse.
Diego pegou a página. Sua voz era firme. "De R. Aranda para Thomas Greer. Assunto: Transferência para o Pátio Norte. 'Assim que a velha estiver sob investigação, agiremos rápido. O atraso do tribunal nos dá a oportunidade. Certifique-se de que a avaliação permaneça baixa e o relatório ambiental permaneça engavetado.'"
Rodrigo se levantou tão rápido que sua cadeira arrastou no chão. "Isso é invenção."
Mercedes olhou para ele. "É mesmo?"
“Você está passando vergonha”, ele disparou.
“Não”, disse ela baixinho. “Pela primeira vez em anos, estou te envergonhando.”
Os olhos de Rodrigo se voltaram para Diego com puro ódio. Diego entendeu então que o casamento não era o verdadeiro medo de Rodrigo. O que o assustava eram as provas. Em algum lugar no império que Samuel e Mercedes haviam construído, Rodrigo havia enterrado algo pelo qual valia a pena lutar.
O almoço em família terminou sem sobremesa. Rodrigo saiu furioso, mas antes de ir embora, inclinou-se para perto de Diego e sussurrou: “Você tem pais, não tem?”
Diego congelou.
Rodrigo sorriu. “El Paso é longe de Dallas. Acidentes acontecem em estradas longas.”
As mãos de Diego se fecharam em punhos sob a mesa. Cada fibra do seu ser queria se levantar, agarrar Rodrigo pela gola e fazê-lo repetir aquilo na frente de todos. Mas a violência seria exatamente a imagem que Rodrigo desejava.
Então Diego sorriu de volta, embora isso lhe custasse caro. “Ameaçar pessoas pobres é fácil. Tente ameaçar alguém que não tem mais nada a perder.”
O sorriso de Rodrigo se desfez. Naquela noite, Diego ligou para a mãe. Não contou tudo. Apenas perguntou se alguém estranho havia passado pela casa. A mãe riu nervosamente e disse que um homem em um SUV preto havia estacionado do outro lado da rua por vinte minutos e depois ido embora.
O sangue de Diego gelou.
Ele encontrou Mercedes na biblioteca. Evelyn já tinha ido para casa, e a casa parecia grande demais novamente. Mercedes estava sentada sozinha ao lado da lareira, a luz alaranjada suavizando as linhas do seu rosto.
“Ele ameaçou meus pais”, disse Diego.
Mercedes fechou os olhos. Não de surpresa. De arrependimento.
“Posso mandar seguranças”, disse ela.
“Não é essa a questão.”
“É exatamente essa a questão.”
“Não”, disse Diego, e sua voz falhou de raiva. “A questão é que eu trouxe isso para a porta deles. Casei com você para salvá-los, e agora eles podem estar em ainda mais perigo por minha causa.”
Mercedes olhou para ele. “Rodrigo trouxe o perigo para a porta deles. Não você.”
Diego deu uma volta rápida pela sala. "Isso é coisa de gente rica, quando pode arcar com as consequências."
As palavras o atingiram mais forte do que ele pretendia. Mercedes ficou imóvel.
Ele se arrependeu imediatamente. "Desculpe."
"Não", disse ela. "Você tem razão em estar com raiva."
A honestidade dela o desarmou.
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