"Você sabe cozinhar?", perguntou ele à noiva humilhada; a resposta dela mudou tudo.

—Mudei de ideia. Não sou obrigado a casar. Era apenas um acordo por escrito, nada mais. Vou pagar a ela… bem, não agora, mas talvez eu possa reembolsá-la de parte da passagem mais tarde.

Ele disse isso em voz alta o suficiente para que a telegrafista, dois condutores de mulas, o carregador de bagagens e um grupo de meninos que fingiam arrumar sacos ouvissem.

Essa foi a verdadeira crueldade: não a deixar sozinha com a humilhação.

Amália sentiu o calor subir ao pescoço, mas não olhou para baixo. Aurélio agitava os papéis da agência, como se com eles pudesse justificar uma mulher viajando por dias apenas para ser abandonada antes do fim da hora.

«Você vai entender», acrescentou ele.

Amalia pensou nos dormitórios frios do asilo. Nas meninas mais novas que a observavam partir como se ela tivesse ganhado uma nova vida. Pensou na última moeda que entregou para comprar a passagem. Pensou em como não tinha dinheiro para voltar.

«Entendo perfeitamente», disse ele finalmente.

Aurélio piscou. Talvez esperasse um apelo. Talvez lágrimas. Não recebeu nenhuma das duas coisas.

Ele colocou os papéis na bolsa e saiu sem olhar para trás.

A plataforma começou a esvaziar-se ao seu redor. As pessoas fingiam estar com pressa, mas todas se viravam uma última vez antes de atravessar a rua. Na hora do jantar, metade de San Jacinto já saberia que a namorada por correspondência tinha sido dispensada. Na manhã seguinte, até o padre saberia.

Amália estava de pé com a mala aos seus pés.

Do outro lado da rua, um homem saiu da loja de ferragens carregando um saco de pregos e dobradiças. Parou no degrau de madeira. Tinha trinta e dois anos, ombros largos, mãos calejadas de carpinteiro e serragem grudada na manga. Seu rosto era sério, cansado, não por um dia difícil, mas por vários anos de trabalho árduo.

Seu nome era Tomás Cárdenas.

Ele viu a mulher na plataforma, a mala, as costas eretas, o espaço vazio onde outro homem acabara de demonstrar sua insignificância. Não perguntou nada. Atravessou a rua.

Ele parou ao pé da escada.

“Meu nome é Tomás Cárdenas”, disse ele. “Tenho dois filhos e uma casa que precisa de arrumação. Trabalho como carpinteiro três dias por semana. Há um quarto ao lado da cozinha, com porta própria. Não estou lhe oferecendo casamento nem caridade. Estou lhe oferecendo abrigo, comida e um salário justo até que você decida o que fazer.”

Amália olhou para ele atentamente.

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