“Acabou. O portão sul está comprometido. Os Petrov estão lá dentro. Saia, e eu vou acabar com isso.”
A resposta de Dominic foi totalmente natural. "Você vendeu sua alma por um desconto."
Gabriel riu. "Não. Eu vendi minha lealdade por uma promoção. Me ofereceram a Costa Leste quando você morreu. Depois de dez anos sendo sua sombra, isso me pareceu justo."
Vidros estilhaçaram.
Tiros ecoaram pelo corredor, ensurdecedores no bunker. Estilhaços caíram no chão. Amelia levou as mãos à boca para não gritar. Silas revidou do lado esquerdo da porta. Dominic esperou — não disparou, não entrou em pânico, apenas esperou.
Silêncio.
Uma mudança no ritmo dos passos. Recarregar.
Dois tiros abafados de Dominic.
Um grunhido. Um corpo caindo no concreto.
"Movam-se!" Silas latiu.
Depois, outro tiro. Então, silêncio.
O alarme continuava a soar.
Amélia permaneceu debaixo da mesa até sentir dedos se fecharem em seu ombro.
"Está feito", disse Dominic.
Ela olhou para cima.
Seu rosto estava coberto de poeira e luz vermelha. Ele ofereceu a mão. Ela a pegou e deixou que ele a puxasse para fora.
No corredor, Gabriel estava sentado, encolhido contra a parede, com uma das mãos pressionada inutilmente contra o peito. Sangue escuro se espalhava entre seus dedos. Seus olhos encontraram os de Dominic, não suplicantes, apenas furiosos.
"Você deveria ter confiado mais em mim", Gabriel rosnou.
Dominic ficou parado sobre ele sem piscar. "Você deveria ter aprendido russo melhor."
Gabriel franziu a testa, sem entender.
Dominic atirou mais uma vez.
Depois, a propriedade se moveu com uma eficiência terrível.
Homens que Amelia nunca vira varriam os corredores, lacravam entradas, carregavam corpos, limpavam evidências, reorganizavam a fortaleza antes que o amanhecer pudesse tingir completamente o céu. O ataque Petrov no portão sul foi repelido antes que o sol surgisse por trás da crista da montanha. Wyatt confirmou transferências bancárias para Gabriel através de empresas de fachada nas Ilhas Cayman. Cada carta traduzida que Amelia tocara se alinhava com a traição como ossos se juntando sob a pele.
Pela manhã, Gabriel estava em um saco para cadáveres.
E Amelia estava enrolada em um cobertor de lã na biblioteca da propriedade, olhando para dez milhões de dólares em seu telefone e se perguntando o que a liberdade significava agora.
Parte 3
A luz da neve banhava a biblioteca em um prateado pálido.
O cômodo cheirava a cedro, papel velho e fumaça da fogueira baixa. Além das janelas à prova de balas, a encosta da montanha descia em direção a uma floresta de pinheiros negros. Em algum lugar abaixo, motores ligavam e desligavam. Equipes de limpeza. Turnos de segurança. O prático. Máquinas que seguiam a violência.
Amélia estava sentada em uma poltrona de couro com os joelhos encolhidos e o cobertor em volta dos ombros como uma armadura. Seu celular estava sobre a mesa à sua frente, a tela ainda acesa com o equilíbrio impossível que mudara nada e tudo ao mesmo tempo.
Ela ouviu as portas da biblioteca se abrirem atrás dela e soube, sem se virar, que era Dominic.
Ele atravessou a sala em silêncio calculado.
Quando finalmente olhou para cima, ele havia tomado banho e vestido um terno cinza-escuro, mas a noite ainda o marcava. Um hematoma cortava uma de suas maçãs do rosto. Seus nós dos dedos estavam rachados. Seus olhos estavam sombreados pela insônia e por algo mais pesado que o cansaço.
Ele serviu dois dedos de uísque e bebeu metade de uma vez antes de falar.
“Wyatt confirmou tudo. Gabriel vendeu horários de rotas, códigos de segurança e meus movimentos por oito milhões.”
O olhar de Amélia se voltou para o celular. “Você me pagou mais do que ele recebeu por te trair.”
Um sorriso sem humor surgiu em seus lábios. “Aparentemente, sua lealdade foi o melhor investimento.”
“Não romantize isso.” A voz dela saiu monótona. "Eu não fiz isso por você."
"Eu sei." Ele pousou o copo. "Você fez isso porque você..."
“A verdade era que eu não conseguia viver em silêncio.”
Ela odiava que ele também percebesse isso claramente.
Por um instante, nenhum dos dois falou.
Então, Amelia fez a pergunta que a atormentava desde a sala de guerra.
“Posso ir embora?”
Dominic a observou por um longo tempo antes de responder.
“Sim.”
A palavra a atingiu com mais força do que o cativeiro.
Ele enfiou a mão no bolso interno e colocou um cartão de acesso preto ao lado do telefone dela.
“Há um Challenger 350 de prontidão na pista particular abaixo da crista. Silas a levará. A conta é sua. A dívida está quitada. Designarei uma equipe de proteção — discreta, não invasiva, permanente, se você quiser. Você pode voltar para Manhattan, desaparecer na Califórnia, comprar uma casa em Vermont, se mudar para Florença, fazer o que quer que pessoas com dez milhões de dólares e bom gosto façam.”
Ela olhou do cartão para o rosto dele.
“E você?”
A expressão dele não mudou. “Fico aqui e termino a guerra.” “E você nunca virá atrás de mim.”
Uma pequena pausa.
“Foi o que eu disse.”
Deveria ter sido fácil.
Este era o final que ela imaginara em fragmentos desde a noite no Sterling: dinheiro, segurança, distância, uma vida que ela escolheu. Chega de trabalhar como garçonete. Chega de dívidas. Chega de medo de atender o telefone. Chega de homens como Dominic Russo manipulando a realidade.
Então, por que o cartão de acesso parecia estranhamente leve? Por que parecia menos uma fuga e mais uma história que ela já havia superado?
Ela se levantou e caminhou até a janela.
Abaixo do penhasco, a manhã clareava, um dia azul intenso. Homens se moviam pelo pátio em padrões eficientes. Em algum lugar dentro daquela casa, algo estava sendo analisado, rotas redesenhadas, inimigos mapeados. Uma máquina de poder, brutal e disciplinada, se reorganizava em torno de novas informações.
Em torno da inteligência dela.
Esse era o problema que ela não podia mais ignorar.
Ela passara anos dizendo a si mesma que queria invisibilidade porque invisibilidade era segurança. Mas segurança não pagava as contas. Segurança não protegia seu pai. Segurança não impedia predadores de devastarem cidades enquanto pessoas comuns os serviam. jantar e mantiveram os olhos baixos. A verdade era mais feia.
Ela não apenas sobrevivera à sala de guerra.
Ela havia despertado nela.
A constatação a repugnava.
E a entusiasmava.
A voz de Dominic veio de trás dela, mais baixa do que antes. "Você não precisa se envergonhar do que você é."
Amélia se virou bruscamente. "E o que eu sou?"
Ele não respondeu imediatamente. Quando respondeu, seu tom perdeu toda a expressividade.
"Uma mulher que enxerga estruturas que outras pessoas não veem. Uma mulher que passou a vida inteira se encolhendo porque coisas menores atraem menos danos." Ele se aproximou, mas não tanto a ponto de fazê-la recuar. "Ontem à noite você não era pequena, Amélia. Você era precisa."
Algo apertou dolorosamente seu peito.
"Meu pai costumava dizer que a linguagem era uma catedral", disse ela após um longo silêncio. "Que até mesmo códigos criados para propósitos nefastos ainda revelavam algo belo sobre a mente humana."
Dominic ouviu.
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