Peguei sem agradecer. Fechei a porta antes que ele pudesse falar mais.
O envelope era grosso. Rasguei-o no balcão da cozinha, meus dedos desajeitados.
Uma pequena chave de bronze caiu primeiro. Depois, uma nota dobrada com a letra dela, a mesma caligrafia inclinada que costumava assinar meus cartões de aniversário apenas com seu nome.
Li duas vezes.
Você encontrará uma garagem neste endereço. Dentro está o que você realmente merece.
Sentei no chão.
O que eu realmente merecia… Depois de tudo, seria aquela sua última palavra? Uma unidade de armazenamento provavelmente cheia de velharias? Uma última humilhação silenciosa da mulher que nunca disse que se orgulhava de mim?
Peguei minhas chaves.
A viagem pela cidade levou trinta minutos. Não me lembro de nada. Lembro de chegar a uma fileira de garagens alugadas em uma rua industrial silenciosa, os números correspondendo ao endereço da nota.
Fiquei em frente à porta por um longo tempo antes de me curvar e inserir a chave na fechadura.
A porta de metal subiu com um gemido lento.
A primeira coisa que me atingiu foi um cheiro esmagadoramente forte.
Entrei, segurando o nariz. Minhas pernas cederam antes que meu cérebro pudesse acompanhar. Caí no concreto e gritei.
"Meu Deus. O que é isso?"
Centenas de fotografias emolduradas cobriam todas as paredes.
Eu bebê no colo da minha mãe. Meu primeiro dia de escola. Minha formatura do ensino médio, tirada de algum lugar na última fila.
O cheiro vinha da tinta fresca cobrindo as paredes.
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