Meu avô manteve um número de telefone escondido na carteira por mais de trinta anos — quando finalmente liguei para ele após sua morte, a voz do outro lado da linha me fez congelar

 

— Vovô — perguntei uma vez, quando eu tinha uns 12 anos — por que o senhor guarda essa foto se ela te deixa triste?

 

Ele olhou para a imagem por um longo momento antes de responder:

 

— Porque a gente se apega a algumas coisas, querida… mesmo quando não sabe como consertar.

 

Na época, eu não entendi. E também não pedi explicações.

 

Meu avô me criou sozinho, e fez isso sem nunca me fazer sentir que era um sacrifício.

 

Meus pais nunca fizeram parte da minha vida. Sempre que eu perguntava onde estavam, ele apenas apertava minha mão e dizia a mesma coisa:

 

— A vida nem sempre acontece como a gente planeja, querida.

 

Depois mudava de assunto para algo que eu gostasse, e de algum jeito eu esquecia que deveria estar triste.

 

Ele fazia meu lanche da escola todas as manhãs, sem exceção.

 

Dentro da bolsa, dobrado em um pequeno quadrado e escondido sob o sanduíche, havia sempre um bilhete com as mesmas palavras: “Você consegue.”

 

Ele me ensinou a andar de bicicleta no estacionamento atrás da biblioteca, quando eu tinha seis anos. Corria ao meu lado até eu dizer que estava pronta — e então me soltava antes que eu percebesse.

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