— Vovô — perguntei uma vez, quando eu tinha uns 12 anos — por que o senhor guarda essa foto se ela te deixa triste?
Ele olhou para a imagem por um longo momento antes de responder:
— Porque a gente se apega a algumas coisas, querida… mesmo quando não sabe como consertar.
Na época, eu não entendi. E também não pedi explicações.
Meu avô me criou sozinho, e fez isso sem nunca me fazer sentir que era um sacrifício.
Meus pais nunca fizeram parte da minha vida. Sempre que eu perguntava onde estavam, ele apenas apertava minha mão e dizia a mesma coisa:
— A vida nem sempre acontece como a gente planeja, querida.
Depois mudava de assunto para algo que eu gostasse, e de algum jeito eu esquecia que deveria estar triste.
Ele fazia meu lanche da escola todas as manhãs, sem exceção.
Dentro da bolsa, dobrado em um pequeno quadrado e escondido sob o sanduíche, havia sempre um bilhete com as mesmas palavras: “Você consegue.”
Ele me ensinou a andar de bicicleta no estacionamento atrás da biblioteca, quando eu tinha seis anos. Corria ao meu lado até eu dizer que estava pronta — e então me soltava antes que eu percebesse.
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