Eu não esperava que algo viesse de ajudar uma mulher cega a atravessar a rua. Mas na manhã seguinte, SUVs pretos pararam em frente ao nosso trailer, e nada jamais foi o mesmo.
As pessoas nos olhavam como se fôssemos invisíveis, como se não importássemos. Mas acho que é assim quando você mora em um trailer velho, manchado de ferrugem, à beira de uma rodovia antiga que mal vê tráfego. Meu nome é Leo. Eu tinha 10 anos no ano em que tudo mudou.
Aquela manhã começou como todas as outras: pés descalços no linóleo frio, um cheiro de café instantâneo e mamãe cantarolando para si mesma, mesmo sem muita coisa para sorrir. O papel de parede já havia descascado há muito tempo, e a geladeira ofegava como se estivesse em suporte de vida. Ainda assim, era nosso lar.
Minha irmãzinha, Tina, tinha cinco anos na época. Ela ainda estava dormindo no colchão dobrável quando eu passei devagar por ela com a mochila pendurada em um ombro e um velho skate debaixo do braço.
Eu havia encontrado o skate atrás do lixão alguns dias antes. O grip estava gasto e as rodas não combinavam, mas imaginei que talvez alguém na feira pudesse me dar alguns trocados por ele.
Minha mãe, Amanda, 32 anos, beijou minha testa enquanto eu estava na porta. Seus olhos tinham aquela tristeza suave à qual eu já estava acostumado, mas ela forçou um sorriso.
“Seja cuidadoso, querido,” disse ela. “Não deixe ninguém te enganar sobre o que vale.”
“Não vou,” prometi, mesmo sem ter certeza do quanto realmente valia.
A caminhada até a feira levou quase uma hora. Morávamos nos arredores da cidade, além do ponto onde as calçadas terminavam. Era a mesma estrada pela qual meu pai costumava dirigir antes de morrer em um acidente de exploração madeireira.
Foi quando tudo desmoronou.
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