Ela lia histórias para um chefe da máfia em coma todas as noites — até que ele agarrou seu pulso e sussurrou seu nome.

Uma tempestade de inverno brutal vinda do Lago Michigan lançou chuva congelante contra as janelas do hospital. Clara chegou para o seu turno das onze da noite com um pressentimento ruim no estômago.

Matteo havia sumido.

Em seu lugar, estava um homem de pescoço grosso que ela nunca tinha visto antes, mexendo no celular do lado de fora do quarto 412.

“Onde está Matteo?”, perguntou Clara.

O homem mal ergueu os olhos.

“Mudou-se.”

“Para onde?”

Ele sorriu sem calor.

“Não é da sua conta, enfermeira.”

Dentro do quarto 412, Clara verificou tudo duas vezes. Depois, três. Os lacres do soro. As prescrições de medicamentos. A fechadura da porta. O botão de emergência.

Nicholas permanecia em silêncio sob os cobertores.

Às duas e quarenta e cinco da manhã, a energia oscilou.

Por três segundos, o quarto ficou às escuras.

O gerador de emergência zumbiu ao ligar. As luzes voltaram a funcionar.

A maçaneta girou.

Clara se levantou.

A porta se abriu lentamente.

Um homem entrou vestindo um jaleco branco de médico, touca cirúrgica azul e máscara. Um estetoscópio pendia de seu pescoço. Mas nenhum médico se movia assim. Nenhum médico atravessava um quarto com tamanha violência silenciosa e cautelosa.

Seus olhos foram direto para Nicholas.

Não para a ficha médica.

Não para Clara.

Para Nicholas.

Ele tirou uma seringa do bolso do jaleco.

O líquido dentro era transparente.

A voz de Clara saiu fina e aguda.

"Com licença. O que você está fazendo?"

O homem a ignorou.

"Não há novas prescrições de medicamentos", disse ela, aproximando-se dele. "O Dr. Evans não autorizou nada."

Ele estendeu a mão para o cateter central de Nicholas.

Clara se moveu antes que o medo a paralisasse.

Ela segurou o antebraço dele.

"Não."

O golpe foi tão rápido que ela não o viu.

O dorso da mão dele atingiu seu rosto com força. Uma dor intensa explodiu atrás de seus olhos. Ela caiu com tudo no chão, a cabeça batendo contra o linóleo. Por um segundo, o quarto pareceu se dividir em dois, depois em quatro.

Ela sentiu o gosto de sangue.

Com a visão turva, viu o assassino destampar a seringa com os dentes.

"Não", Clara ofegou, estendendo a mão fracamente.

A agulha baixou.

A um centímetro do cateter.

Então Nicholas se moveu.

Sua mão direita saiu de debaixo do cobertor e fechou-se em torno do pulso do assassino com uma força impossível.

O assassino congelou.

Os olhos de Nicholas Castiglione se abriram.

Não estavam confusos.

Não estavam vazios.

Estavam negros de fúria.

O monitor cardíaco disparou, apitando descontroladamente enquanto Nicholas torcia o pulso do assassino. Um estalo ecoou pelo quarto. O homem gritou, deixando cair a seringa. Ela atingiu o chão e Destroçado.

Nicholas agarrou a frente do jaleco branco, puxou o assassino para baixo e bateu com o rosto dele contra a grade de metal da cama.

Uma vez.

O homem desmaiou.

O quarto se encheu de alarmes.

Clara olhou fixamente, tremendo, com sangue escorrendo pela bochecha.

Nicholas sentou-se lentamente.

Arrancou a cânula de oxigênio do nariz. Sua respiração estava ofegante, prejudicada por meses de desuso, mas seus olhos nunca se desviaram dos dela.

Quando falou, sua voz era um rouco e arruinado.

 

“Toda a sabedoria humana”, disse ele, “está contida nestas duas palavras.”

Clara prendeu a respiração.

O olhar de Nicolau a queimava.

“Espere e tenha esperança.”

A frase final de O Conde de Monte Cristo.

O mundo de Clara desmoronou.

“Você me ouviu”, sussurrou ela.

Nicolau olhou para a porta.

“Eu ouvi tudo.”

Um arrepio percorreu seu corpo, mais forte que a tempestade.

A contração na têmpora. A tensão na mandíbula. A estranha sensação de que o quarto deixara de ser um túmulo.

Ele não acordara naquela noite.

Estara acordado.

Por semanas.

Talvez mais.

Preso dentro do próprio corpo, ouvindo.

Ouvindo Leo zombar dele.

Ouvindo seus inimigos planejarem sua morte.

Ouvindo Clara lê-lo de volta à vida.

O alarme soou mais alto.

Nicolau fez uma careta.

“Desligue essa droga, Clara.”

Suas mãos tremiam tanto que ela quase errou o botão, mas conseguiu silenciar o monitor.

O silêncio repentino foi ainda pior.

Nicholas jogou as pernas para fora da cama. Seu corpo tremia violentamente com o esforço. Estava mais magro do que meses atrás, os músculos atrofiados pela imobilidade, a pele coberta de suor.

Parecia um cadáver tentando se tornar rei novamente.

“Matteo”, ele sussurrou. “Onde ele está?”

“Não sei”, disse Clara. “Ele não estava aqui quando cheguei. Um dos homens de Leo o substituiu.”

A mandíbula de Nicholas se contraiu.

“Eles não o matariam aqui. Seria muito bagunçado. Precisam que minha morte seja limpa.”

Clara pressionou a mão contra a bochecha sangrando.

“Há um antigo depósito de farmácia no subsolo”, disse ela. “Fechado para reformas. Sem câmeras. Quase ninguém vai lá.”

Nicholas assentiu uma vez.

"Encontre-o."

"Não posso te deixar."

"Você pode e vai." Sua voz era fraca, mas a autoridade nela contida fez o quarto parecer menor. "Não posso andar por aqueles corredores. Se os homens de Leo me virem acordado, vão atirar. Seu lugar é aqui. Você pode se mover sem levantar suspeitas."

Clara o encarou.

Por seis meses, ele fora seu paciente. Seu fantasma. Sua responsabilidade impossível.

Agora ele estava pedindo que ela se arriscasse por ele.

Nicholas olhou para a bochecha dela. Algo sombrio passou por seus olhos.

"Ele te bateu."

"Estou bem."

"Não, você não está." Sua mão se ergueu lentamente, seus dedos roçando o hematoma com uma delicadeza surpreendente. "Ele vai pagar por isso. Mas agora, preciso que você seja mais corajosa do que nunca."

Clara engoliu em seco.

"O que eu digo para o Matteo?"

A boca de Nicholas se curvou levemente. “Diga a ele que o conde acordou.”

Ela encontrou uma cadeira de rodas no armário e ajudou Nicholas a entrar. O processo quase o quebrou. Uma dor aguda cruzou seu rosto. Seus joelhos cederam. Ele apertou o ombro dela com tanta força que ela sabia que ficariam roxos.

Mas ele não gritou.

Assim que se sentou, puxou um cobertor sobre o colo.

“Se alguém entrar”, disse Clara, “finja que ainda está inconsciente.”

Seus olhos se voltaram para o assassino caído no chão.

“Eu já treinei.”

Clara saiu sorrateiramente para o corredor.

O guarda do lado de fora do quarto 412 havia sumido.

Isso a assustou mais do que se ele estivesse lá.

Ela pegou o elevador de serviço até o subsolo, com o coração batendo tão forte que pensou que fosse desmaiar antes das portas se abrirem. O andar inferior cheirava a poeira, água sanitária e concreto velho. Luzes fluorescentes piscavam no teto.

Então ela ouviu.

Tum.

Tum.

Pum.

Um som abafado de batidas atrás de uma porta de aço com a inscrição "DEPÓSITO DE FARMÁCIA DESATIVADA".

Clara encostou o ouvido na porta.

"Matteo?"

As batidas pararam.

"Clara?" Sua voz estava abafada, furiosa, viva. "O que diabos você está fazendo aqui embaixo?"

"Salvando você, aparentemente."

"Corra. Leo ordenou o ataque esta noite. Tem um homem lá em cima."

"Eu sei. Nicholas o impediu."

Silêncio.

Então Matteo disse, bem baixinho: "O quê?"

Clara encontrou o teclado numérico.

"Qual é o código?"

"Tente 0451."

Ela digitou.

A luz ficou verde.

A fechadura fez um clique.

Lá dentro, Matteo Russo estava amarrado a um cano com abraçadeiras de plástico, o rosto machucado, o lábio cortado, o paletó rasgado. Clara caiu de joelhos e cortou as amarras com uma tesoura cirúrgica que tinha no bolso.

“Ele acordou”, disse ela.

Matteo olhou para ela.

“Não.”

“Ele quebrou o pulso do assassino.”

A expressão de Matteo mudou.

O homem ferido e encurralado desapareceu.

Algo mais frio estava em seu lugar.

“O que ele disse?”

Clara olhou-o fixamente nos olhos.

“Ele disse que o conde acordou.”

Matteo fechou os olhos por um segundo.

Quando os abriu, Clara entendeu por que os homens temiam a lealdade quase tanto quanto a traição.

“Leo Rossi”, disse Matteo, “acabou de se tornar um morto-vivo.”

Parte 3

Matteo se movia pelo Saint Jude como se o hospital tivesse sido construído para sua vingança.

Subiu as escadas de serviço de dois em dois degraus, apesar dos ferimentos, com uma das mãos segurando uma pistola com silenciador que Clara não tinha visto escondida em seu coldre de tornozelo. Clara seguiu, ofegante, tonta, apavorada com cada som.

Quando chegaram ao quarto andar, o guarda substituto de Leo estava de volta do lado de fora do quarto 412, encostado na parede e mexendo no celular.

Ele não ouviu Matteo se aproximar.

A coronha da arma atingiu a parte de trás de seu crânio. O homem caiu sem fazer barulho. Matteo o arrastou para um depósito.

e fechou a porta.

Dentro do quarto 412, Nicholas esperava na cadeira de rodas, meio escondido nas sombras.

O assassino estava acordado o suficiente para gemer, amarrado com gaze e amordaçado com uma toalha.

Matteo entrou, viu Nicholas sentado ereto e parou como se a visão tivesse lhe tirado o ar dos pulmões.

“Chefe.”

Sua voz falhou.

Nicholas estendeu a mão.

Matteo se ajoelhou e apertou sua mão.

“Eu nunca fui embora”, disse Matteo.

Os olhos de Nicholas suavizaram por um breve instante.

“Eu sei.”

Então a suavidade desapareceu.

“Leo virá confirmar a morte.”

Matteo assentiu.

“Ele é vaidoso demais para não vir.”

Nicholas olhou para Clara.

“Você pode fazer exatamente o que eu mandar?”

Clara tremia. Seu rosto latejava. Seu estômago revirava toda vez que olhava para o assassino inconsciente. Mas ela assentiu.

Eles prepararam o quarto.

Travesseiros sob cobertores formavam o contorno do corpo de Nicholas na cama. Os eletrodos do monitor cardíaco estavam conectados ao assassino, que foi empurrado para debaixo da cama, onde a máquina ainda conseguia captar o ritmo. Matteo estava atrás da porta. Nicholas esperava atrás da pesada cortina de privacidade, na cadeira de rodas.

Clara estava sentada em sua poltrona de sempre, perto da janela, com O Conde de Monte Cristo aberto no colo.

Suas mãos não paravam de tremer.

Nicholas percebeu.

“Clara.”

Ela olhou para ele.

De trás da cortina, sua voz rouca soou suavemente.

“Você ainda pode sair andando.”

“Não”, ela sussurrou.

“Você deveria.”

“Eu disse não.”

Pela primeira vez naquela noite, o silêncio respondeu.

Então ele disse, quase gentilmente: “Mulher teimosa.”

Ela quase riu.

Quase.

Vinte minutos depois, a porta se abriu.

Leo Rossi entrou vestindo um sobretudo escuro, com a neve derretendo em seus ombros. Olhou ao redor do quarto, o olhar percorrendo Clara como se ela fosse um móvel, antes de pousar na cama.

A silhueta coberta pelo cobertor.

O monitor fixo.

O silêncio.

Seu sorriso era feio.

"Então está feito", disse Leo.

Clara apertou o livro com tanta força que seus nós dos dedos doeram.

Leo tirou as luvas de couro, dedo por dedo.

"Vejo que você sobreviveu à noite, enfermeira. Arthur deve ter sido honesto sobre isso."

Arthur. O assassino.

Clara não disse nada.

Leo caminhou até o pé da cama.

"Não fique tão horrorizada. Isso foi misericórdia. Nicholas já foi um titã. Deixá-lo assim foi cruel. A família precisava de força. Chicago precisava de ordem."

Uma voz veio das sombras.

"Foi mesmo?"

Leo congelou.

Seu rosto estava tão pálido que parecia esculpido em cera.

A cortina que impedia a passagem da luz se moveu.

Nicholas se virou para a frente.

A luz do abajur iluminou suas bochechas encovadas, seus olhos escuros e a cicatriz na têmpora. Ele parecia magro, abatido, quase morto.

Mas ninguém naquele quarto o confundiu com fraco.

Leo cambaleou para trás.

"Nicholas."

Matteo saiu de trás da porta e pressionou a arma contra a nuca de Leo.

"Mãos para cima."

Leo as ergueu lentamente.

"Matteo", sussurrou. "Você deveria estar—"

"Morto?", perguntou Matteo. "Você deveria contratar homens melhores."

Nicholas parou a poucos passos de Leo.

Por um longo momento, ele simplesmente o encarou.

"Eu ouvi você", disse Nicholas. "Por dois meses, eu ouvi você."

A boca de Leo tremeu.

“Chefe, escuta—”

“Eu ouvi você desviando cargas do cais. Eu ouvi você cortejando capitães. Eu ouvi você dizendo que minha vida era um incômodo.”

“Nicholas, a família estava se desfazendo. Os colombianos estavam avançando para o sul. Os russos estavam testando Cicero. Alguém precisava demonstrar força.”

“Você demonstrou ambição”, disse Nicholas. “E traição.”

Os olhos de Leo se voltaram para Clara.

O desespero se intensificou em seu rosto.

“Ela é uma testemunha”, disse ele rapidamente. “Você acha que ela não vai falar? Você acha que vale a pena arriscar tudo por uma enfermeira?”

A expressão de Nicholas mudou.

O ambiente ficou mais frio.

“Não olhe para ela.”

Leo engoliu em seco.

“Nicholas—”

“Não diga o nome dela. Não respire na direção dela. Você perdeu o direito de falar sobre qualquer coisa humana quando mandou um assassino para um quarto de doente.”

Pela primeira vez, Clara viu o medo quebrar Leo Rossi completamente.

Ele começou a implorar.

Implorou a Nicholas. Implorou a Matteo. Invocou lealdade, pressão, dinheiro, história, irmandade.

Nicholas ouviu sem se mexer.

Então disse: “Levem-no.”

Matteo agarrou Leo pela gola.

“O armazém do rio?” perguntou Matteo.

O olhar de Nicholas permaneceu fixo em Leo.

“Não.”

Matteo fez uma pausa.

Clara olhou para cima.

Até Leo piscou.

Nicholas recostou-se na cadeira de rodas, exausto, pálido, mas inabalável.

“Acordei ouvindo O Conde de Monte Cristo”, disse ele baixinho. “Uma história sobre um homem que acreditava que a vingança o tornaria completo.”

Leo respirou fundo pelo nariz.

Nicholas voltou os olhos para Clara.

“E todas as noites, enquanto ela lia, comecei a entender algo que Dantès aprendeu tarde demais.”

A garganta de Clara se apertou.

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