Não estava inteiro.
Era um pônei de plástico, barato e pequeno, daqueles que vêm em pacotes com vários em lojas de R$ 1,99. Talvez tivesse sido bonitinho um dia — azul claro com a crina pintada de rosa —, mas agora estava completamente partido ao meio. A metade traseira pendia da dianteira por um pedaço fino de plástico que parecia que ia se quebrar a qualquer momento. Uma das patas estava completamente faltando. Arranhões profundos marcavam suas laterais, como se tivesse sido arrastado no asfalto ou mordido por um cachorro. Sujeira se acumulava nas ranhuras de sua crina moldada.
Ava o encarou.
O canto dos filhos de Nicole se transformou em risinhos abafados. Meu pai se remexeu, olhou para minha mãe e depois para Ava. Minha mãe observava minha filha como quem observa um experimento de laboratório — curiosa, distante, esperando uma reação.
Ava olhou do pônei para mim.
Seus olhos — grandes, castanhos, tão parecidos com os meus — estavam arregalados e inquisitivos. Ela não estava chorando. Também não estava sorrindo. Sua testa franzia levemente, como quando ela está tentando entender um jogo novo ou um quebra-cabeça complicado. Eu conseguia ver os pensamentos se formando em seus olhos: Isso está certo? Isso é normal? Isso é aceitável?
Cada parte de mim gritava que não.
Mas por um instante, eu não fiz nada. Fiquei ali parada, congelada, sentindo como se tivesse sido transportada para uma lembrança que eu nem sabia que ainda tinha.
Porque eu já estive aqui antes. Não no quintal da Nicole, não com a Ava, mas na sala de estar abafada da casa da minha infância, puxando o papel rasgado de uma caixa para encontrar algo quebrado, errado, incompleto. Observando o rosto da minha mãe em busca de algum indício de que a decepção que eu sentia era justificada. Ouvir comentários como: “Bem, nem sempre se consegue o que se quer”, ou “É o que acontece quando o dinheiro está curto”, ou o pior de todos, dito com um sorriso forçado: “Isso é para crianças que não fazem o que se espera delas”.
Crianças decepcionantes.
Eu tinha sido uma delas, a vida inteira, e nem sabia que existia uma expressão para isso até aquele momento.
“Está… quebrado”, disse Ava finalmente, com a voz baixa. Não era uma reclamação, apenas uma observação.
Meu pai deu uma risadinha sem jeito. “Bem, você sabe, nem tudo na vida é perfeito”, disse ele, as palavras se atropelando. “Forja o caráter.”
Minha mãe riu, mais alto. “Talvez no ano que vem ela consiga um inteiro”, disse ela. “Se ela merecer.”
Nicole se virou, tomando um longo gole de sua bebida, os olhos fixos na linha das árvores como se não tivesse ouvido uma palavra. Os filhos dela estavam passando o pônei quebrado de um para o outro, fazendo uns relinchos estranhos, dobrando-o para frente e para trás no ponto rachado.
Os dedos de Ava apertaram o plástico. Ela olhou para eles e depois para mim. E naquele instante, algo dentro de mim — não um nervo ou pensamento isolado, mas toda uma estrutura de hábitos, desculpas e justificativas — finalmente se quebrou.
Eu queria arrancar o pônei das mãos dela. Queria erguê-lo, esfregá-lo na cara da minha mãe e perguntar o que diabos havia de errado com ela. Queria gritar até minha voz ficar rouca, listar cada pequena crueldade, manipulação e momento de negligência que eu havia engolido ao longo dos anos.
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