Elliot olhou para ela.
"Nos mudamos?"
O maxilar dela se contraiu. "O aluguel aumentou."
"Quanto?"
"Suficiente."
"Sienna."
Ela suspirou. "Quarenta por cento."
Quarenta por cento.
Ele pensou em sua cobertura. Sua casa em Aspen. Sua casa de praia em Malibu. A adega que mal usava. Os cômodos vazios que possuía enquanto seu filho fora forçado a sair do único lar que conhecia.
“Você devia ter me contado.”
Sienna se virou completamente para ele.
“Você deixou bem claro que não queria se envolver. Eu não ia implorar para um homem se importar com o próprio filho.”
As palavras não foram gritadas.
Isso as tornou ainda piores.
De volta ao quarto do hospital, Theo começou a choramingar. Seu rosto se contorceu e seus bracinhos se estenderam para cima.
“Para cima”, ele murmurou.
Sienna se moveu automaticamente, mas os olhos de Theo estavam fixos em Elliot.
“Papai, para cima.”
O ar pareceu sumir do quarto.
Elliot olhou para Sienna.
Ela parecia ter sido tocada em uma velha ferida.
“Ele não entende”, ela sussurrou.
Mas Theo estendeu a mão novamente.
“Papai.”
A voz de Elliot saiu rouca. “Posso?”
Sienna hesitou, depois assentiu.
Ele pegou o filho no colo pela primeira vez. Theo era mais leve do que Elliot esperava e mais quente do que qualquer coisa que ele já tivesse segurado. Seu corpinho se acomodou contra o peito de Elliot com uma confiança surpreendente, sua cabeça encaixando-se na curva do ombro dele como se sempre tivesse pertencido ali. Uma mãozinha pegajosa agarrava a camisa de Elliot. A outra segurava o elefante de pelúcia.
Elliot começou a balançar sem querer.
Theo suspirou.
Sienna os observava com uma expressão que ele não conseguia decifrar.
“Do que ele gosta?”, perguntou Elliot de repente. “Das coisas favoritas dele. Quero saber.”
Por um longo momento, Sienna não disse nada.
Então, ela lhe deu um presente que ele não merecia.
“Ele adora livros. Caminhões. Caminhões de lixo, principalmente. Toda quinta-feira de manhã, ele corre para a janela e acena como se fossem um desfile. Ele gosta de me ajudar a cozinhar, o que significa espalhar farinha por todo lado. Ele odeia vegetais verdes, a menos que estejam escondidos embaixo de frango. Ele ri quando eu faço seus bichinhos de pelúcia falarem.”
Elliot fechou os olhos. Vinte meses de uma vida.
Vinte meses de quintas-feiras.
Vinte meses de risos que ele perdeu.
“Ele pergunta sobre mim?”
A boca de Sienna tremeu por um instante antes que ela conseguisse se controlar.
“Ele pergunta sobre papais. Eu digo a ele que famílias vêm em todos os formatos. Algumas têm mamães e papais. Algumas têm só mamães. Algumas têm avós. Algumas têm pessoas que as amam de diferentes maneiras.”
“Essa é uma boa resposta.”
“Era a única resposta que eu tinha.”
Theo se mexeu contra o peito dele.
“Fica”, ele sussurrou.
Elliot pressionou os lábios contra os cabelos úmidos do filho.
“Vou ficar esta noite”, disse ele.
Sienna o encarou com firmeza. “Você não precisa.”
“Perdi todas as noites da vida dele”, disse Elliot. “Não vou perder esta.”
Parte 2
O hospital à noite tinha o poder de despir as pessoas até a verdade.
À meia-noite, o paletó sob medida de Elliot estava dobrado sobre o encosto de uma cadeira de plástico. Sua gravata havia sumido. As mangas estavam arregaçadas. Ele aprendera a segurar Theo na posição vertical quando a tosse começava, a cantarolar baixinho sem acordá-lo, a ler os números no monitor de oxigênio sem entrar em pânico a cada mudança.
Sienna cochilava na estreita cama do hospital, mas nunca profundamente. Cada som a fazia abrir os olhos. Cada passo da enfermeira a fazia sentar-se parcialmente antes de se lembrar de que Elliot estava acordado.
"Você deveria dormir", ele sussurrou depois que Theo se acalmou após mais um pico de febre.
"Você também."
"Não quero perder mais nada."
Sienna olhou para ele da cama, o rosto suavizado pelas sombras.
"Você se lembra da noite em que te contei que estava grávida?"
Elliot encarou a criança adormecida no berço.
"Sim." “Nós dois choramos.”
“Por motivos diferentes”, disse ele.
Sienna deu um sorriso triste e fraco. “Eu estava com medo. Mas também estava… maravilhada. Eu ficava pensando: existe uma pessoa. Existe mesmo uma pessoa.”
“Você estava apavorada.”
“Eu estava apavorada.”
“Eu sei.”
“Não”, disse Elliot. “Você sabia que eu estava com medo. Você não sabia o quão horrível era. Eu pensei que, se ficasse, me tornaria meu pai. Frio. Crítico. Presente no ambiente, mas ausente onde importava. Achei que ir embora fosse a escolha mais segura.”
Sienna sentou-se lentamente.
“Você tinha tanto medo de se tornar um pai ausente que acabou se tornando um.”
Ele assentiu.
Não havia defesa.
Dinheiro tinha sido fácil. Ele havia providenciado apoio financeiro por meio de advogados. Ele havia se certificado de que os pagamentos chegassem. Ele havia dito a si mesmo que estava fazendo a coisa certa ao não interferir.
Mas Dinheiro não havia segurado a mão de Sienna durante o parto.
Dinheiro não havia lavado mamadeiras às três da manhã.
Dinheiro não havia beijado a testa de Theo após sua primeira queda.
Dinheiro não havia aparecido.
"Eu esperei por você", disse Sienna.
Elliot olhou para ela.
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