A herdeira bilionária se vestiu como uma pobre faxineira de hotel para arruinar seu encontro às cegas, mas o homem que a defendeu foi justamente aquele que ela acabou arruinando.

"Quando?"

Olivia não respondeu.

Harper suspirou. "Liv, toda mentira tem um prazo de validade. Você não decide quando ela explode."

Mas Olivia ainda saiu do carro.

Bennett estava perto da entrada lateral, desta vez sem uniforme, mas ainda vestido de forma simples com uma jaqueta escura e jeans. Ele pareceu surpreso ao vê-la.

"Você voltou", disse ele.

"Eu estava passando por aqui."

Ele olhou para o beco, a entrada de funcionários, a completa ausência de lojas por perto.

"Através da área de carga e descarga de um hotel?"

Ela desistiu. "Tudo bem. Vim te ver."

O sorriso dele era discreto, mas chegava aos olhos. "Isso soa melhor."

Eles caminharam até um food truck de café na esquina. Bennett comprou dois cafés e um saco de papel com donuts, pagando em dinheiro como um homem que sabia como a vida normal funcionava. Olivia o observou.

"Você faz isso sempre?", perguntou ela.

"Tomar café?"

"Agir normalmente."

Ele fez uma pausa e riu. "Você acha que estou fingindo?"

"Não. Quer dizer..." Ela balançou a cabeça. "Esquece."

Bennett a observava, notando a maneira como ela se corrigia. A cautela. A voz educada que ela tentava suavizar. O jeito como ela agradecia ao vendedor de café pelo nome depois de ler o crachá.

Emma não era quem dizia ser.

Mas, na verdade, ele também não era.

Eles estavam sentados em um muro de pedra baixo perto de um pequeno parque, tomando café em copos de papel enquanto o trânsito passava apressado.

“Minha família é complicada”, disse Olivia.

“Somos dois.”

“E a sua?”

Bennett olhou fixamente para o copo em suas mãos. “Eles amam a versão de mim que faz sentido para eles.”

Olivia ficou em silêncio.

Ele olhou para ela. “Você entende isso?”

“Mais do que eu gostaria.”

Por um tempo, eles conversaram sobre tudo, menos sobre a verdade.

Ela disse que adorava livrarias antigas, lanchonetes abertas até tarde e os Cubs, mesmo quando eles a decepcionavam. Ele disse que gostava de consertar rádios antigos, caminhar à beira do rio quando precisava pensar e que odiava salas onde todos se comparavam.

Ela riu disso.

“O quê?”, perguntou ele.

“Nada. Eu só conheço essas salas.”

“Por causa da limpeza delas?”

O sorriso dela desapareceu por meio segundo.

“Sim”, ela disse. “De limpá-las.”

Bennett percebeu a mentira e deixou passar.

Porque tinha medo de que, se puxasse um fio da meada, tudo desmoronaria, inclusive ele.

Nas duas semanas seguintes, eles se encontraram cinco vezes.

Nunca em restaurantes caros. Nunca em lugares onde os amigos do pai de Olivia pudessem vê-la. Comeram tacos de um food truck, dividiram batatas fritas em uma lanchonete perto do Lincoln Park, caminharam à beira do rio ao entardecer e, certa vez, foram pegos por uma chuva tão forte que se abrigaram sob a marquise de uma farmácia e riram até a barriga de Olivia doer.

Bennett percebeu que Emma ouvia como se estivesse faminta por uma conversa de verdade.

Olivia percebeu que Benn tinha orgulho, mas não crueldade.

Certa vez, ele lhe contou uma história falsa para testá-la. Disse que sua mãe tinha contas médicas e que ele estava fazendo horas extras.

Olivia imediatamente pegou a carteira.

“Leve isso”, disse ela.

“Não.”

“Por favor.”

“Eu não te contei para você me pagar.”

“Você disse que precisava de ajuda.”

“Eu disse que a vida era difícil. Isso não significa que eu esteja à venda.”

Ela se encolheu. “Não quis dizer isso.”

A voz dele suavizou. “Eu sei.”

Ela guardou o dinheiro, envergonhada.

“Obrigado”, disse ele.

“Pelo quê?”

“Por querer ajudar antes de julgar.”

Naquela noite, Bennett estava sentado sozinho em sua cobertura, olhando para o contato de Emma no celular.

Miles estava perto da ilha da cozinha, comendo cereal em uma caneca.

“Você está encrencado”, disse Miles.

Bennett não levantou o olhar. “Ninguém perguntou.”

“Você está mesmo encrencado. O riquinho finge ser segurança, se apaixona pela falsa faxineira e se recusa a admitir que tem sentimentos. Clássico.”

“Ela está escondendo alguma coisa.”

“Você também.”

“Isso é diferente.”

Miles riu. “É o que todas as pessoas culpadas dizem.”

Bennett desligou o telefone. “Preciso saber por quê.”

“Talvez pelo mesmo motivo que você fez isso.”

Isso o calou.

Na casa dos Whitmore, Olivia também estava se desmoronando.

Seu pai havia notado suas ausências. Sua tia havia notado seu humor mais suave. Madison havia notado tudo.

Certa tarde, Madison a seguiu à distância e a viu rindo com Bennett do lado de fora de uma lanchonete, a mão dele roçando a dela enquanto atravessavam a rua.

A princípio, Madison ficou confusa.

Depois, satisfeita.

Olivia Whitmore, herdeira bilionária, se encontrando às escondidas com um segurança?

Era o tipo de escândalo que finalmente poderia fazer a perfeita Olivia parecer insignificante.

Naquela noite, Madison ligou para Preston Hale.

Preston era filho de um magnata do ramo imobiliário de luxo e um homem que tentava se casar com Olivia havia três anos. Ele era bonito, charmoso e perigoso, como costumam ser os homens controladores. Nunca gritava em público. Nunca agarrava o braço de alguém à vista de todos. Sorria, elogiava os pais, encantava as tias e fazia as mulheres se sentirem como portas trancadas que ele pretendia abrir.

Olivia o rejeitara duas vezes.

Ele não a perdoara.

“Vi algo interessante”, disse Madison.

Preston ouviu.

Quando ela terminou, ele estava sorrindo.

“Você tem provas?”

“Ainda não.”

“Consiga algumas.”

Alguns dias depois, Henry Whitmore chamou Olivia ao seu escritório.

O cômodo cheirava a couro e dinheiro antigo.

“Você está saindo com alguém?”, perguntou ele.

O coração de Olivia disparou. “O quê?”

“Um homem. Alguém da família Langford.”

Ela manteve o rosto impassível. “Quem te disse isso?”

“Isso não é uma resposta.”

Ela o encarou por um longo momento.

“Conheci alguém gentil”, disse ela.

Henry recostou-se como se ela tivesse confessado um roubo. “Um segurança de hotel?”

“Uma pessoa, pai.”

“Não me venha com slogans.”

“Não são slogans quando são verdadeiros.”

“Você é uma Whitmore.”

“E ele me tratou melhor quando pensava que eu não era ninguém do que a maioria dos homens me trata sabendo exatamente quem eu sou.”

O rosto de Henry escureceu. “Você está romantizando a pobreza.”

“Não. Você está romantizando o controle.”

Ele se levantou tão rápido que a cadeira arrastou no chão.

“Chega.”

“Não, pai. Não chega. Você fica dizendo que está me protegendo, mas nunca pergunta como é ser tão protegida a ponto de não conseguir respirar.”

Por um segundo, algo brilhou em seus olhos.

Dor, talvez.

Então o orgulho a encobriu.

“Você vai jantar com os Sterlings na sexta-feira à noite”, disse ele. “As duas famílias. Sem joguinhos. Sem desculpas.”

O estômago de Olivia deu um nó.

A sexta-feira chegou rápido demais.

Ela usava um vestido azul claro que o estilista do pai havia escolhido.

Olivia sentiu como se estivesse vestindo uma fantasia ainda mais falsa do que o uniforme impecável.

Quando entrou na sala de jantar, Charles e Evelyn Sterling já estavam lá.

Então Bennett entrou.

Não estava com o uniforme de segurança.

Não estava de jeans.

Em um terno cinza-escuro que lhe caía como uma luva.

Olivia prendeu a respiração.

Bennett a viu no mesmo instante.

Seu rosto mudou, levemente, mas o suficiente.

Emma.

Olivia.

Benn.

Bennett.

A sala pareceu girar.

Henry sorriu sem graça. "Olivia, este é Bennett Sterling."

Ninguém disse nada.

Os olhos de Bennett perguntaram: "Você também?"

Os de Olivia responderam: "Você também?"

Antes que qualquer um pudesse se recuperar, Madison chegou com Preston Hale atrás dela.

O sangue de Olivia gelou.

Preston cumprimentou a todos educadamente e esperou até que o jantar mal tivesse começado antes de se levantar.

"Me perdoem", disse ele, com a voz suave. “Eu sei que isso é desconfortável, mas ambas as famílias merecem honestidade.”

Olivia sussurrou: “Preston, não.”

Ele sorriu tristemente, como se estivesse sofrendo por ela. “Eu gostaria que você tivesse pensado nisso antes.”

Ele pegou o celular.

Na tela, havia uma foto de Olivia com o uniforme de faxineira no Langford.

Surtos de espanto percorreram a mesa.

Henry encarou a imagem como se tivesse tido uma revelação.

“Olivia”, disse ele baixinho.

Madison interveio. “Ela se vestiu de faxineira no dia do encontro às cegas. Ela estava espionando todo mundo.”

Charles Sterling ficou vermelho. “Isso é um absurdo.”

Evelyn olhou para Olivia como se tivesse arrastado lama em um tapete branco. “Você zombou do nosso filho?”

“Não”, disse Olivia, com a voz trêmula. “Eu não fiz isso—”

Preston continuou: “Ela queria humilhar Bennett. Fazer piada com o acordo.”

Bennett se levantou.

“Chega.”

Preston se virou para ele. “Talvez você queira se sentar.”

“Por quê?”

Os olhos de Madison se voltaram para Miles, que estava parado perto da porta, pálido de culpa.

“Porque ela não foi a única fingindo”, disse Madison.

Miles fechou os olhos. “Nossa.”

Charles olhou fixamente para o filho. “Bennett?”

O maxilar de Bennett se contraiu.

“Eu não estava à mesa naquela noite”, admitiu. “O Miles estava.”

A sala explodiu em risos.

Henry bateu com a mão na mesa. “Você mandou um funcionário se passar por você?”

Charles se virou para Bennett. “Você perdeu a cabeça?”

A voz de Evelyn era gélida. “Você nos envergonhou na frente dos Whitmores.”

Olivia ficou imóvel.

A vergonha subiu-lhe pela garganta.

Ela imaginara ser desmascarada, mas não assim. Não com Bennett exposto ao seu lado. Não com a raiva de todos transformando os dois em crianças que quebraram porcelana cara.

Henry olhou para ela com uma decepção mais aguda que a raiva.

"Você se vestiu como funcionária", disse ele. "Em público."

A voz de Olivia falhou. "Eu queria saber se podia ser vista sem o dinheiro."

"E você foi?"

Ela olhou para Bennett.

Ele retribuiu o olhar.

Nenhum dos dois conseguiu responder.

Parte 3

Olivia saiu antes que as lágrimas pudessem cair.

Bennett a seguiu até o pátio atrás da casa, onde as luzes da cidade cintilavam além da cerca de ferro e o ar frio do inverno cortava seu vestido.

"Olivia."

Ela se virou bruscamente.

"Não me chame assim como se você não me conhecesse como outra pessoa antes."

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