“Diga à sua filha para tirar as coisas dela. Eu já prometi esse quarto para a minha outra neta.”
Foi isso que Lucia ouviu ao fundo quando sua filha de onze anos, Valentina, ligou para ela no trabalho com a voz trêmula. A princípio, Lucia pensou ter entendido errado. Nenhuma avó normal entraria no quarto de uma criança, jogaria seus desenhos em sacos de lixo e anunciaria que o quarto agora pertencia a outra pessoa.
Mas Carmen Rivera não era uma avó normal. Ela era a mãe de Diego e, por anos, tratou a casa de Lucia como uma sala de espera para suas próprias emergências. Se alguém da família precisava de dinheiro, espaço, um favor, uma carona ou um resgate, a primeira resposta de Carmen era sempre a mesma: Diego tem mais, então Diego deveria dar mais.
Lucia saiu do escritório de contabilidade sem terminar a frase. Seu chefe viu sua expressão e não fez perguntas. Ela correu para a calçada, chamou um carro por aplicativo e passou toda a viagem por Chicago olhando para o celular, ouvindo Valentina chorar atrás da porta trancada do quarto.
“Não abra”, disse Lúcia. “Nem para a sua avó. Nem para a sua tia. Nem para ninguém até eu chegar.”
“Ela disse que o papai vai ficar bravo comigo”, sussurrou Valentina.
A mão de Lúcia apertou o telefone com mais força. “Seu pai também está a caminho. Escuta aqui, querida. Você não fez nada de errado.”
Quando Lúcia chegou ao prédio onde moravam, em Logan Square, seu corpo inteiro tremia de raiva. Uma van de mudança branca estava estacionada irregularmente perto da entrada, com as portas traseiras abertas. Caixas plásticas, um berço dobrado, sacos de lixo pretos e caixas de papelão com a etiqueta BRENDA estavam empilhadas na calçada, como se a mudança já tivesse sido aprovada.
Brenda estava perto da entrada do prédio, com uma mão na barriga de grávida e a outra segurando um grande copo de café gelado. Ela era a irmã mais nova de Diego, tinha vinte e nove anos, estava grávida do quarto filho e tinha a certeza absoluta de que a estabilidade de todos os outros era um insulto às suas dificuldades. Ao ver Lucia, Brenda revirou os olhos como se Lucia estivesse atrasada para um compromisso que havia combinado.
"Que bom que você chegou", disse Brenda. "Valentina está tendo uma crise. Mamãe disse que ela puxou isso de você."
Lucia passou por ela sem responder.
Brenda a seguiu. "Não precisa ser grosseira. Somos família."
Lucia parou tão de repente que Brenda quase esbarrou nela.
"Família liga antes de entrar na casa de alguém", disse Lucia. "Família não obriga uma criança a arrumar o quarto enquanto a mãe está no trabalho."
A expressão de Brenda endureceu. "Meus filhos também precisam de espaço."
"Então peça ao pai deles uma casa maior."
As palavras atingiram em cheio. O marido de Brenda, Trevor, estava desempregado havia quase um ano, embora, de alguma forma, sempre tivesse dinheiro para apostas esportivas, tênis novos e fins de semana com os amigos. A solução de Brenda era não exigir mais dele. Era para exigir mais de Diego.
Lúcia pegou o elevador, o coração batendo mais forte a cada andar. Quando chegou ao apartamento, a porta estava escancarada. Um estranho da empresa de mudanças estava parado no corredor segurando um dos organizadores de Valentina, cheio de livros.
"Largue isso", disse Lúcia.
O homem parou abruptamente. "Senhora, me disseram—"
"Disseram errado."
Lá dentro, a sala parecia ter sido invadida. Carmen estava sentada no sofá, organizando os cadernos de Valentina com a calma autoridade de uma mulher que limpa uma gaveta. O pai de Diego, Tomás, estava perto do corredor segurando um saco de lixo cheio de roupas. Ele parecia desconfortável, mas não o suficiente para parar.
Valentina estava encostada na parede, abraçando um travesseiro. Seus olhos estavam inchados, suas bochechas úmidas, e vê-la fez a raiva de Lúcia se transformar em algo mais frio. A filha parecia menor que onze anos, como uma menininha tentando não ocupar espaço na própria casa.
Lúcia atravessou o quarto e puxou Valentina para seus braços.
"Estou aqui", sussurrou. "Ninguém vai ficar com o seu quarto."
Carmen deu uma risada seca. "Você sempre faz isso. Você transforma tudo em drama."
Lúcia olhou por cima da cabeça da filha. "O que você está fazendo no meu apartamento?"
Carmen nem fingiu estar envergonhada. "Resolvendo uma situação que você e Diego deveriam ter resolvido há meses. Brenda está grávida. Ela tem três filhos. Aquela casinha que ela aluga em Cicero não serve mais."
"Então ela pode procurar outra casa."
"Com que dinheiro?" Carmen retrucou. "Você sabe como o aluguel está caro hoje em dia."
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