Naquela tarde, foi o papai quem estava esperando no portão. Os olhos dele estavam vermelhos, e as mãos não paravam de tremer.
“Onde está a mamãe?” perguntou Lily.
“Sua mãe… não vai vir, querida”, ele sussurrou.
“Quando ela volta?” puxei sua manga. “Papai, quando?”
“Eu não sei, meu bem. Eu não sei.”
Esperamos naquela noite. E na seguinte. E na seguinte.
Mas mamãe tinha desaparecido.
Três meses depois, Jean entrou na nossa sala com presentes, uma travessa de comida e um sorriso que me deixou desconfortável, embora eu fosse jovem demais para entender o motivo.
“Meninas, esta é a Jean, minha boa amiga do trabalho”, disse papai, suavemente. “Ela vai nos ajudar por um tempo.”
“Oi, queridas”, disse Jean, ajoelhando. “Ouvi tanto falar de vocês duas. Não são as menininhas mais lindas?”
Lily se escondeu atrás de mim. Eu apenas fiquei olhando.
Menos de um mês depois daquele primeiro encontro, Jean se tornou nossa madrasta.
No começo, Jean fazia nossos lanches e lia histórias para dormir com vozes engraçadas. Ela fazia as tranças mais bonitas no cabelo da Lily todas as manhãs e me ajudava a cuidar do pequeno canteiro de flores no quintal.
Parecia que sua bondade poderia consertar o que tinha se quebrado na nossa família quando a mamãe foi embora, mas o carinho de Jean tinha prazo de validade.
Quando fizemos nove anos, isso já tinha se transformado em outra coisa.
“Podemos comprar os tênis novos que todo mundo tem?” perguntou Lily certa manhã.
“Seja grata pelo que você tem”, retrucou Jean. “Sua mãe de verdade abandonou vocês. Eu sou quem ficou.”
“Desculpa”, sussurrou Lily.
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