"Então o que eu sou?"
Pela primeira vez, algo mudou em seu rosto. Não suavidade, exatamente. Algo mais antigo. Mais nítido. Como reconhecimento.
"Você é uma mulher que acabou de ouvir de um homem que nunca mereceu ter o seu nome."
Vivien estremeceu.
Gabriel estendeu a mão enluvada.
" “Você tem duas opções, Vivien. Ficar neste banco e deixar esta cidade terminar o que seu marido começou. Ou aceitar minha mão.”
Ela olhou para a mão dele.
Couro preto. Perigoso. Impensável.
“Por que eu iria a algum lugar com você?”
“Porque não estou oferecendo conforto”, disse ele. “Estou oferecendo sobrevivência.”
A chuva congelada batia contra o vidro. Em algum lugar distante, uma sirene soou e se dissipou.
Vivien pensou no rosto de Liam quando ele disse que seu casamento não servia mais para nada.
Ela pensou na fechadura se fechando atrás dela.
Ela pensou em morrer sem nome em um banco enquanto ele dormia quentinho ao lado de Vanessa Croft.
“O que acontece se eu for com você?”, ela sussurrou.
Os olhos de Gabriel encontraram os dela.
“Você vive o suficiente para decidir quem você se tornará depois.”
Vivien estendeu a mão, tão fria que mal parecia a sua.
Ela a colocou na dele.
Seu aperto se fechou em torno de seus dedos, firme e quente.
Gabriel a ajudou a se levantar.
Antes que ela pudesse se abaixar para pegar a mochila, um de seus homens já a havia tomado. Gabriel a conduziu até o SUV e abriu a porta traseira ele mesmo.
“Venha comigo”, disse ele.
Vivien olhou uma vez para o ponto de ônibus vazio.
Então, entrou.
A porta se fechou atrás dela com a solidez de um cofre.
Parte 2
O interior da Escalade de Gabriel Rossi era mais quente do que qualquer cômodo em que Vivien já tivesse entrado.
Essa foi a primeira coisa que ela notou.
A segunda foi a divisória de vidro que os separava do motorista.
A terceira foi a arma que repousava sob o casaco de Gabriel quando ele se sentou ao lado dela.
Vivien se acomodou no canto do banco de couro, com as duas mãos em volta de um copo de licor âmbar que Gabriel havia servido sem perguntar se ela queria.
“Beba”, disse ele.
“Não estou muito acatando ordens hoje.” “Você está tremendo tanto que vai quebrar os dentes.”
Ela odiava que ele estivesse certo.
Ela bebeu.
O fogo desceu por sua garganta, fazendo-a tossir. Gabriel observou sem expressão, depois tirou o copo dela antes que ela pudesse derramar.
“Para onde você está me levando?”, perguntou ela.
“Para minha casa.”
“Isso soa exatamente como algo que um assassino diria.”
Desta vez, um sorriso surgiu em seus lábios.
“Justo.”
Vivien olhou pela janela escura. Chicago passou como um borrão em faixas de neon molhado.
“Diga-me a verdade”, disse ela. “Por que eu?”
Gabriel recostou-se, com um braço apoiado no banco. “Liam passou dois anos perdendo dinheiro nos meus clubes privados. Ele acreditava que charme e pedigree o tornavam intocável. Estava enganado.”
“Dois anos”, sussurrou Vivien.
Dois anos de jantares tardios. Dois anos de compromissos cancelados. Dois anos dela deitada em macas de exame enquanto Liam dizia que estava fechando negócios.
"Ele usou os ativos da empresa como garantia", disse Gabrie.
Continuei. “À meia-noite de sexta-feira, ele entra em default. Eu fico com a Reynolds Holdings.”
Vivien se virou para ele. “É isso que você pensa?”
Os olhos de Gabriel se estreitaram.
“O que isso significa?”
“Significa que Liam não é burro o suficiente para te entregar algo valioso.”
O clima no SUV mudou.
A voz de Gabriel ficou baixa. “Explique.”
Vivien deveria ter parado. Deveria ter se lembrado de que o homem ao seu lado era perigoso o suficiente para se locomover por Chicago com uma escolta policial. Mas a dor havia dissipado o medo.
“A Reynolds Holdings parece rica por fora. Mas não é. Pelo menos não mais. Liam vem vendendo partes da empresa, refinanciando propriedades, escondendo prejuízos atrás de empresas de fachada. Se ele te deu a empresa como garantia, é porque já a esvaziou.”
Gabriel ficou imóvel.
“Como você sabe?”
“Porque antes de Liam decidir que meu único trabalho era gerar um herdeiro, eu administrava as finanças da nossa casa. Vi transferências suficientes para saber que algo estava errado. Contas nas Ilhas Cayman. Uma empresa de fachada chamada Apex Meridian. Perguntei a ele uma vez. Ele me disse para não me preocupar.”
Gabriel a observou.
“O que mais?”
O pulso de Vivien acelerou. “Ele mantém um livro-razão físico.”
“Onde?”
“No cofre embaixo do tapete do escritório dele.”
“Combinação?”
“Nosso aniversário de casamento.”
A ironia era tão cruel que nenhum dos dois sorriu.
Gabriel bateu uma vez na divisória. O motorista olhou para trás.
“Lake Forest”, disse Gabriel. “Então ligue para Mateo.”
Vivien piscou. “Mateo?”
“Meu subchefe.”
“Claro. Por que não haveria um subchefe?”
Agora Gabriel quase sorriu novamente.
Eles chegaram a Lake Forest sob uma cortina de neve pesada. A propriedade de Gabriel ficava atrás de portões de ferro, no final de uma longa alameda particular ladeada por carvalhos centenários. Era menos uma mansão do que uma fortaleza fingindo ser uma mansão, construída em pedra escura e ângulos agudos, iluminada por luzes de segurança baixas que faziam a neve brilhar prateada.
Lá dentro, o hall de entrada era de mármore, cristal e silêncio.
Uma mulher mais velha chamada Rosa apareceu antes mesmo de Gabriel chamá-la duas vezes. Ela tinha olhos castanhos calorosos e a calma prática de alguém que já tinha visto demais para se surpreender facilmente.
“Esta é a Srta. Hastings”, disse Gabriel. “Ela ficará na ala leste. Banho quente, comida, roupas secas. Tudo o que ela precisar.”
“Claro”, disse Rosa gentilmente.
Vivien se virou para Gabriel. “Sou uma hóspede ou uma prisioneira?”
Sua resposta veio suave demais. “Esta noite, você está viva.”
“Isso não é uma resposta.”
“Não”, disse ele. “Mas é a única que me sinto à vontade para dar enquanto você está quase congelada.”
Ele caminhou em direção a um par de pesadas portas de carvalho e parou.
“Não tente sair pela floresta. Os sensores a encontrarão antes dos meus homens.”
O estômago de Vivien se contraiu.
“Você disse que eu não era garantia.”
“Você não é. Mas até eu saber quem mais sabe que Liam a abandonou, esta propriedade é o lugar mais seguro para você em Illinois.”
Então ele desapareceu em seu escritório.
Rosa levou Vivien para o andar de cima, para uma suíte maior do que o primeiro apartamento que ela alugara depois da faculdade. Havia uma lareira, uma cama king-size e um banheiro revestido de mármore branco. Vivien mergulhou em uma banheira quente e finalmente sentiu seu corpo voltar ao normal, centímetro por centímetro, com muita dor.
Ela deveria estar apavorada.
E estava.
Mas por baixo do terror, algo mais se agitava.
Raiva.
Pela manhã, Rosa havia deixado roupas em uma cadeira: calças de lã pretas, um suéter de cashmere creme e mocassins exatamente do seu tamanho. Vivien se vestiu lentamente, olhou para si mesma no espelho e mal reconheceu a mulher que a encarava.
Pálida. Marcada pela dor.
Mas de pé.
Ela encontrou Gabriel em seu escritório.
Ele estava ao telefone falando italiano, com as mangas arregaçadas até os antebraços, um copo de café expresso intocado sobre a mesa. Um homem com uma cicatriz na sobrancelha estava perto da lareira. Ele olhou para Vivien como soldados olham para uma tempestade inesperada.
Gabriel encerrou a ligação.
“Você deveria estar descansando.”
“Eu descansei.”
“Não o suficiente.”
“Eu não vim aqui para pedir conselhos médicos.”
A sobrancelha do homem com a cicatriz se ergueu.
O olhar de Gabriel se aguçou, demonstrando interesse. “Então por que você veio?”
“Você está de olho na empresa do Liam. Não faça isso.”
O silêncio se instalou.
O homem com cicatrizes se mexeu. Gabriel ergueu uma das mãos e o homem congelou.
Vivien entrou mais na sala.
“Você herdará dívidas, processos judiciais, investidores furiosos e propriedades hipotecadas duas vezes. Liam quer que você fique com a ruína. Ele vai embora com o dinheiro offshore e dizer a todos que a máfia destruiu o legado da família dele.”
Gabriel se encostou na mesa.
“E o que você sugere, Srta. Hastings?”
A antiga Vivien teria se encolhido com o tom dele.
Esta Vivien não.
“Sugiro que pare de atacar a isca e pegue o cofre.”
A sala ficou em silêncio.
Gabriel olhou para o homem com cicatrizes. “Mateo, nos deixe.”
Mateo hesitou.
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