O jovem armeiro riu do rifle enferrujado da garçonete — até que a dona do estabelecimento entrou e sussurrou o nome de seu falecido pai.

“Minha mãe e eu. Ela morreu há seis anos.”

“Sinto muito.”

Olivia olhou para o rifle. “Ele guardava isso num baú no sótão. Eu nem sabia que estava lá até depois do funeral.”

Robert olhou para o pano, desbotado, quase cinza, pelo tempo.

“Ele teria embrulhado assim”, murmurou.

“Você o conhecia?”

“Eu o conheci quando ele tinha vinte e três anos”, disse Robert. “E o conheci no pior dia da minha vida.”

A loja pareceu encolher ao redor deles.

Lá fora, o trânsito fluía pela Rua Granby. Em algum lugar no quarteirão, uma buzina soou. Um ônibus parou na calçada. A vida continuava com sua indiferença americana comum.

Dentro da Mercer & Sons Firearms, Olivia Carter, vestida com um uniforme de garçonete, com os pés doloridos e contas atrasadas, ouvia um estranho segurar a porta aberta para um cômodo da vida de seu pai no qual ela nunca tivera permissão para entrar. Robert virou o livro na direção dela.

Havia uma fotografia em preto e branco na página.

Um jovem fuzileiro naval ajoelhado em uma crista rochosa no Vietnã. Lama nas mangas. Um rifle nas mãos. O rosto mais magro, mais anguloso, meio século mais jovem.

Mas inconfundível.

A mão de Olivia bateu com força no balcão.

"É ele", sussurrou.

"Sim."

Ela encarou a fotografia até os olhos arderem.

O homem na foto não era o pai que fazia panquecas aos domingos de manhã. Nem o viúvo discreto que consertava o carro dela e enviava cartões de aniversário com antecedência. Nem o homem que se sentava na última fila de todas as peças da escola e aplaudia baixinho, como se tivesse medo de incomodar alguém.

Este homem tinha vinte e três anos e estava longe de casa, olhando através de uma luneta para algo fora do enquadramento.

Algo terrível.

Algo que o havia seguido.

Robert esperou até que ela levantasse o olhar.

Então ele começou.

Parte 2

“Vietnã, 1969”, disse Robert. “Nos arredores de Da Nang. Unidade de reconhecimento. Deveríamos estar avançando por uma área que, segundo a inteligência, estava pouco defendida.”

Ele soltou um suspiro sem humor.

“A inteligência estava errada.”

Olivia não se mexeu.

Os olhos de Robert permaneceram fixos no rifle, mas sua voz havia se perdido em outro lugar.

“Caímos em uma emboscada logo após o nascer do sol. A primeira rajada destruiu as comunicações. A segunda atingiu nosso médico. Ficamos encurralados por três lados antes mesmo que alguém pudesse calcular quantos deles estavam lá fora.”

Brandon permaneceu imóvel atrás do balcão.

O antigo cliente de jaqueta de lona manteve o boné contra o peito.

“Tínhamos dois atiradores de elite treinados na unidade”, continuou Robert. “Um foi ferido nos primeiros dez minutos. O outro ficou sem munição tentando conter o flanco esquerdo. Estávamos perdendo terreno. Rapidamente.”

Ele tocou a coronha rachada.

“Então seu pai pegou isso.”

Olivia engoliu em seco.

“Ele não recebeu ordens para fazer isso?”

“Não.”

Robert olhou para ela.

“Ray Carter não esperou por permissão naquela manhã.”

As palavras a atingiram com uma força estranha. Seu pai tinha sido o homem mais cuidadoso que ela já conhecera. Ele conferia as fechaduras duas vezes. Dobrava as sacolas de compras. Nunca dirigia a oito quilômetros acima do limite de velocidade. Pedia desculpas às garçonetes quando seu café estava frio, mesmo que não fosse culpa delas.

“Ele subiu sozinho até um ponto no alto de uma colina, uns quarenta metros acima de nós”, disse Robert. “Ângulo ruim. Sem nenhuma cobertura que valesse a pena mencionar. Sol no rosto. Qualquer pessoa sensata teria chamado isso de suicídio.”

“Mas ele foi mesmo assim.”

“Ele foi porque, se não fosse, o resto de nós não voltaria para casa.”

Olivia fechou os olhos por um segundo.

Ela viu seu pai no quintal, ensinando-a a andar de bicicleta.

Não fique olhando para o chão, Liv. Olhe para onde você quer ir.

A voz de Robert suavizou.

“Ele manteve aquela crista por quarenta minutos.”

Ninguém disse nada.

“Quarenta minutos não parecem muito tempo até que homens estejam tentando te matar”, disse ele. “Aí, quarenta minutos se tornam uma eternidade.”

Ele abriu o livro em outra página e apontou para um trecho datilografado de um relatório pós-ação.

Olivia viu palavras como avanço inimigo interrompido, ação defensiva individual, precisão excepcional, nenhum erro confirmado.

Sua garganta se fechou.

“Quantos?”, perguntou ela.

Robert olhou para o rifle.

“Vinte e três tiros”, disse ele. “Vinte e três acertos.”

O rosto de Brandon empalideceu.

O velho de boné da Marinha sussurrou: “Meu Deus.”

Olivia ouviu o número, mas sua mente resistiu. Vinte e três era demais. Preciso demais. Era impossível se apegar ao homem que costumava deixar cupons de desconto colados na geladeira e ligar para ela toda quarta-feira à noite só para perguntar se os pneus do carro dela estavam calibrados.

“Seu pai salvou doze fuzileiros navais naquele dia”, disse Robert. “Eu era um deles.”

Olivia olhou para ele.

Algo mudou entre eles naquele momento.

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