Chloe congelou.
“Rosa?”
A governanta cobriu a boca, com os olhos cheios de lágrimas. “Madonna mia. Você está viva.”
Aquela gentileza quase destruiu Chloe completamente.
A voz de Victor cortou o saguão. “Acorde o Dr. Reed. Berçário da ala leste. Banhos quentes. Roupas limpas. Sopa, chá, cobertores infantis. Ninguém fala sobre isso fora desta casa.”
“Sim, Sr. Romano”, disse Rosa, já se mexendo.
Chloe apertou Lily contra si. “Eles ficam comigo.”
Victor se virou.
Meia dúzia de funcionários parou de se mexer.
Chloe não se importou. Seus cabelos pingavam no piso de mármore, que provavelmente custava mais do que todos os seus salários dos últimos cinco anos. Seu moletom grudava no corpo. Seu corpo doía. Seu orgulho estava em pedaços.
Mas seus filhos eram dela.
“Eles ficam comigo”, repetiu.
Victor olhou para ela.
Então ele assentiu.
“Com você”, disse ele. “Sempre.”
A palavra a atingiu com mais força do que ela esperava.
Sempre.
Na ala leste, um berçário surgiu do nada. Rosa e duas mulheres mais velhas se moviam com uma urgência silenciosa, enchendo uma banheira de cobre, estendendo toalhas, verificando as temperaturas e aquecendo meias perto da lareira.
O Dr. William Reed chegou quinze minutos depois, vestindo um casaco de lã sobre o pijama, com a maleta médica na mão e ainda sonolento.
Um olhar para Victor o despertou completamente.
“Examine-os”, disse Victor.
O Dr. Reed examinou Arthur primeiro, depois Lily. Chloe pairava tão perto que Reed finalmente disse, gentilmente: “Senhorita Henderson, prometo que não os machucarei”.
Victor ficou parado perto da lareira, silencioso e letal.
“Eles estão com frio, desidratados e subnutridos”, disse Reed por fim. “Lily está com o início de uma infecção respiratória. Os pulmões de Arthur estão limpos, mas ambos precisam de repouso, líquidos, calor e alimentação adequada. Não haverá danos permanentes se agirmos agora.”
“Se?” perguntou Victor.
Reed engoliu em seco. “Se eles tivessem ficado lá fora por mais tempo, esta seria uma conversa diferente.”
O ambiente mudou.
Chloe sentiu antes de ver.
Victor ficou completamente imóvel.
Não com raiva como homens comuns. Sem gritos. Sem andar de um lado para o outro. Sem socos na parede.
Apenas silêncio.
Um silêncio terrível.
"Obrigada, doutor", disse Chloe rapidamente, pois temia o que o silêncio de Victor pudesse se tornar.
Reed arrumou sua mala. "Enviarei as receitas e volto amanhã."
Quando as crianças finalmente tomaram banho, foram vestidas, alimentadas com colheradas de sopa quente e acomodadas em uma cama enorme em um quarto ao lado, Chloe sentou-se sozinha na suíte principal com uma toalha nos ombros.
Ela podia ouvir a respiração delas através da porta entreaberta.
Respiração segura.
Respiração quente.
Pela primeira vez em anos, nenhuma sirene soou do lado de fora da janela. Nenhum vizinho do andar de cima gritou. Nenhum proprietário bateu na porta.
Seu corpo começou a tremer.
Victor estava parado à sua frente. “Diga-me o nome completo de Abernathy.”
“Não.”
Seus olhos se estreitaram.
“Não?”
“Eu sei o que você vai fazer.”
“Você não tem ideia do que eu vou fazer.”
“É exatamente por isso que estou dizendo não.” Chloe apertou a toalha com mais força. “Não quero sangue nos cobertores dos meus filhos.”
Victor deu um passo em sua direção. “Ele os colocou na rua.”
“E eu o odeio”, ela disparou. “Eu o odeio tanto que consigo sentir o gosto. Odeio o jeito que ele me olhou, o jeito que ele riu quando Arthur chorou, o jeito que ele me chamou de lixo porque eu usava uniforme e não podia pagar até de manhã.”
Sua voz falhou, mas ela continuou.
“Mas eu não mantive meus filhos vivos por cinco anos para que a primeira noite deles em uma cama quentinha terminasse com o pai deles assassinando alguém por eles.”
Victor parou.
Pai.
Ela tinha dito isso.
A palavra passou entre eles como algo sagrado e perigoso.
Chloe desviou o olhar.
“Não estou defendendo ele”, ela sussurrou. “Estou pedindo que você seja melhor do que os homens que me fizeram fugir.”
Aquilo o atingiu onde nenhuma bala jamais havia atingido.
Victor olhou para a porta do berçário.
Arthur e Lily dormiam do outro lado, alheios ao fato de que sua existência acabara de desafiar todas as leis de sua vida.
No mundo de Victor, o mal era respondido com medo. O desrespeito, corrigido. A traição, eliminada.
Mas Chloe estava lhe pedindo algo mais difícil.
Contenção.
Justiça sem crueldade.
Poder sem derramamento de sangue.
Ele odiava o quão impossível aquilo parecia.
Odiava mais do que queria tentar.
"O nome dele", disse Victor em voz baixa. "Não por assassinato."
Chloe o observou, procurando pela mentira.
"Paul Abernathy", disse ela finalmente. "Ele é dono de um prédio na South Halsted. O contrato de aluguel está na minha bolsa. Se ele não jogou fora."
Victor pegou o celular e ligou para Declan.
“Encontrem Paul Abernathy. Tragam Thomas Sterling. Quero todas as propriedades, todas as infrações, todos os impostos atrasados, todos os despejos ilegais, todos os inquilinos que ele ameaçou. Acordem o Juiz Callahan, se for preciso. E mandem homens ao apartamento da Chloe. Recuperem tudo. Brinquedos, roupas, documentos, fotografias. Nada será deixado para trás.”
Declan fez uma pausa. “E o próprio Abernathy?”
Victor olhou para Chloe.
Ela sustentou o olhar dele, desafiando-o.
“Não o toque”, disse Victor. “Ainda não.”
Ele desligou.
Chloe suspirou.
“Você está falando sério?”
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