Ele continuou falando como se tivesse ensaiado.
"A casa é legalmente minha", disse ela com naturalidade. "Preciso de espaço. Não consigo lidar com complicações agora. Não é bom para mim e não me ajuda a seguir em frente. Acho que seria melhor se você encontrasse outro lugar para ficar."
Ele não hesitou. Ele não tropeçou. Ele não pediu desculpas.
Observei-o atentamente. O terno caro. Os sapatos lustrados. O relógio que valia mais do que meu carro. A leve ruga entre as sobrancelhas, perfeitamente calculada para fazê-lo parecer magoado o suficiente para despertar compaixão sem parecer verdadeiramente destruído. Lembrei-me dos jantares naquela mesma casa — aquela que ele agora considerava inteiramente sua — Laura rindo do outro lado da mesa, os olhos percorrendo nervosamente nosso corpo sempre que o clima ficava tenso.
Senti um nó no peito. Talvez fosse raiva. Talvez fosse a dor se transformando em algo mais frio. Mas não gritei.
Eu sorri.
Um sorriso discreto. Quase imperceptível. Sem escárnio. Sem desafio. Não era para ele. Era para mim: um lembrete silencioso de que eu ainda mantinha algum controle sobre mim mesma, mesmo que tanta coisa tivesse me sido tirada.
"Entendo", eu disse baixinho.
Eu não discuti. Não o lembrei dos anos em que morei lá ajudando Laura. Nem das noites em que fiquei com o filho dele quando viajavam. Nem do dinheiro que investi quando ele era apenas um jovem ambicioso e sem um tostão. Não falei nada sobre os contratos, as reuniões, as assinaturas, os sacrifícios.
Eu simplesmente assenti com a cabeça.
Naquela noite, voltei à casa pela última vez.
Sem Laura, tudo parecia vazio. Como se sua ausência tivesse esvaziado as paredes, deixando apenas móveis e fotografias imóveis em um lugar que não pertencia mais a nenhuma de nós. Ao passar pelo quarto dela, vi que a porta estava entreaberta. Parei, apoiando a mão no batente, olhando para a cama onde eu dormira na adolescência, agora impecavelmente arrumada e intocada.
Quase pude ouvir a voz dele de novo. "Pai, por que você sempre bate duas vezes? Eu já disse para você entrar."
Entrei e fiquei ali parada em silêncio. Seu perfume ainda pairava levemente no ar, misturado ao cheiro de detergente e ao aroma de papel velho dos livros na estante. Sobre a mesa, havia uma foto de casamento dela com Daniel emoldurada: seu sorriso radiante, sua postura altiva.
Na mesa de cabeceira havia uma fotografia menor: Laura, de oito anos, nos meus ombros na praia, com os braços estendidos como asas. Peguei-a com cuidado.
Mais tarde, no meu quarto, peguei uma mala pequena. Coloquei apenas o essencial: roupas, meias, roupa íntima e o suéter que ele tinha me dado porque, como ele brincava, eu precisava de algo "apresentável" para os eventos de negócios dele. Acrescentei meus documentos, que eu sempre mantinha organizados em uma pasta: meu RG, extratos bancários e alguns contratos.
Em seguida, coloquei a fotografia antiga da praia por cima.
Todo o resto — os móveis, as estantes, a poltrona gasta onde eu costumava ler enquanto ela e Daniel assistiam à TV, os utensílios de cozinha que comprei quando me mudei para ajudar com o bebê — nada disso importava. Era só peso, e eu não tinha o menor interesse em brigar por essas coisas.
Arrumei a cama antes de sair. Acho que virou hábito. Fui até a cozinha e deixei as chaves em cima da mesa. Elas bateram na madeira com um rangido que ecoou no quarto vazio.
Ao chegar à porta da frente, parei e olhei em volta uma última vez. A casa estava com pouca luz, iluminada apenas pelo pequeno abajur do hall. Fotos de família enfeitavam a parede: Laura com o filho nos braços, Daniel sorrindo para a câmera, os três ao lado de uma árvore de Natal. Em uma ou duas fotos mais antigas, eu também aparecia, discretamente ao fundo, como um personagem secundário.
"Adeus, filha", sussurrei. "Espero que... onde quer que você esteja, não precise ver essa parte."
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