Ele desempenhou seu papel perfeitamente.
De vez em quando, uma das senhoras idosas da vizinhança me lançava um olhar, como se lembrasse que eu era o pai de Laura, antes de voltar o olhar para Daniel, atraída pela elegância de seu luto. Eu observava aquela cena silenciosa: as cabeças baixas, os olhares compassivos, as vozes suaves dizendo: "Que tragédia" e "Ele era muito jovem". Algo dentro de mim se agitou. Não porque o luto possa ser medido, mas porque eu sabia perfeitamente bem o que se escondia por trás de sua fachada cuidadosamente controlada.
Durante toda a cerimônia, Daniel mal falou comigo. Seu olhar passou por mim como se eu fosse apenas mais um objeto na sala. Nas poucas vezes em que nossos olhos se encontraram, não havia ternura neles. Pelo contrário, sua expressão endureceu, como se minha presença o irritasse até mesmo no dia em que enterramos Laura.
O padre falou de fé, de paz eterna e de Laura ter "ido para casa". Só ouvi fragmentos. Minha mente vagou por antigas lembranças: sua primeira bicicleta, o dia em que quebrou o braço ao cair de uma árvore, a longa noite tempestuosa em que ficamos acordados porque o trovão a aterrorizava. Quando o padre aspergiu água benta sobre o caixão e as gotas escorreram pela madeira, senti como se estivesse vendo o que restava da minha vida se esvair.
Quando a cerimônia terminou, as pessoas começaram a ir embora aos poucos. Algumas pararam para colocar a mão no meu ombro e dizer as coisas de sempre: "Seja forte, Antonio", "Me liga se precisar de alguma coisa", "Ele está em um lugar melhor". Eu assenti sem realmente ouvi-las.
Então eu vi Daniel junto aos portões, recebendo uma última demonstração de compaixão.
E então ele se aproximou de mim.
Ele caminhava com uma precisão silenciosa, o rosto inexpressivo, como um homem que já havia tomado uma decisão e estava apenas esperando o momento oportuno para anunciá-la.
—Antonio—, disse ela em voz baixa.
Foi a primeira vez naquele dia que ele falou diretamente comigo.
“Precisamos conversar.”
Seu tom era desprovido de calor humano. Não havia nenhum traço de luto compartilhado. Ele não reconheceu o que ambos havíamos perdido. Era a voz de alguém tratando de um assunto prático, como se estivesse chamando um funcionário ao seu escritório. Mesmo assim, eu o segui, pois estava exausto demais para fazer qualquer outra coisa.
Nos afastamos dos outros enlutados e paramos perto de um corredor lateral, ao lado de um antigo confessionário de madeira que exalava um leve cheiro de poeira e verniz. Luzes coloridas entravam pelas janelas de vitral e se espalhavam pelo chão. Por um instante, pensei que talvez fosse dizer algo decente. Algo sobre Laura. Algo sobre como poderíamos superar os dias que viriam.
Em vez disso, ele proferiu algumas palavras que jamais esquecerei.
“Você tem vinte e quatro horas para sair da minha casa.”
O veredicto não foi recebido com júbilo. Foi proferido com a fria firmeza da sentença de um juiz.
Sua voz jamais se elevou. Não havia raiva nela; apenas uma ordem calma e eficiente, proferida no dia em que enterramos minha filha. Seu olhar era firme e impassível. Parecia um homem concluindo uma transação.
Uma pontada de dor atravessou meu peito. Não foi exatamente uma surpresa. A crueldade de Daniel nunca fora óbvia; sempre fora sutil, calculada e deliberada. Mas, mesmo sabendo quem ele era, uma parte de mim ainda se recusava a acreditar que ele escolheria aquele momento para me rejeitar.
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