Meu telefone vibrou contra a mesa de mogno. Era o vice-presidente da nossa filial local em Bethesda, Maryland. Ele me parabenizou com um tom de familiaridade forçada, a voz carregada daquele tipo de alegria artificial geralmente reservada para ganhadores da loteria, não para cônjuges socorrendo seus parceiros em apuros. Respondi com um murmúrio educado e evasivo, desliguei a chamada e coloquei o telefone com a tela para baixo.
Não me senti mais leve. Não senti a súbita e eufórica onda de salvação conjugal que Jason havia me prometido quando passou três horas implorando por esse resgate na semana anterior. Senti-me completamente, cirurgicamente vazia.
Quando Jason voltou da cidade naquela noite, a pesada porta de carvalho da frente bateu com um estrondo alegre. Ele entrou na cozinha cantarolando uma melodia alegre e desafinada, tirando seu elegante casaco de lã italiana sobre o encosto de uma de nossas cadeiras de jantar de veludo feitas sob medida. Ele abriu uma garrafa de Cabernet Sauvignon caro — comprada, ironicamente, com um cartão que havia sido recusado apenas quarenta e oito horas antes — e nos serviu taças generosas.
Ele beijou minha bochecha. Seus lábios estavam secos. Ele cheirava a uísque, vento de inverno e um leve aroma floral atalcado que não combinava com a minha vaidade.
“Você nos salvou, Em”, murmurou ele, brindando com sua pesada taça de cristal. “Um novo começo. Amanhã é o primeiro dia do resto de nossas vidas.”
Dei um gole lento no vinho tinto, deixando os taninos revestirem minha língua. “Sim”, respondi, olhando diretamente em seus olhos castanhos perfeitamente simétricos e completamente vazios. “Primeiro dia.”
Ele bebeu profundamente, totalmente alheio à queda de temperatura no quarto. De manhã, o zumbido cessaria. E o estranho que ele escondia por trás de sua fachada encantadora finalmente emergiria para a luz impiedosa do dia.
Capítulo 2: A Emboscada na Cozinha
O cheiro de café expresso velho me atingiu antes mesmo de eu chegar ao pé da escada.
Apertei o cinto do meu roupão de seda, caminhando descalça sobre o piso de madeira gelado. A casa costumava estar silenciosa às 7h da manhã de um sábado, mas um murmúrio baixo de vozes vinha da cozinha. Não era a conversa casual de uma manhã de fim de semana; era o sussurro tático e discreto de uma área de preparação.
Virei a esquina. Jason estava parado perto da enorme ilha de mármore branco de Carrara. Ele já estava vestido com uma camisa azul-clara impecável, perfeitamente enfiada em uma calça jeans escura. Seu maxilar estava travado, sua postura rígida.
Ele não estava sozinho.
Paredando nervosamente perto da geladeira de aço inoxidável estavam seus pais. Linda Carter ostentava um sorriso tenso e ensaiado que não alcançava seus olhos frios e calculistas. O marido dela, Frank, estava um pouco atrás, com os braços cruzados firmemente sobre o peito, como um oficial de justiça pronto para cumprir uma ordem judicial.
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