“Estou tentando proteger meus filhos.”
“Nossos filhos”, disse ela, devolvendo as palavras dele.
O olhar dele encontrou o dela.
“Sim”, disse ele após uma longa pausa. “Nossos filhos.”
Ela odiava que aquela palavra soasse certa.
Três dias depois, após um fotógrafo subir pela escada de incêndio do lado de fora da janela do seu quarto, Clara fez as malas e deixou o Brooklyn antes do amanhecer.
A propriedade de Sebastian em Greenwich ficava atrás de portões de ferro e hectares de gramado verde, tão silenciosa que parecia irreal. A casa de hóspedes tinha persianas brancas, uma varanda que a circundava e uma cozinha maior que todo o apartamento de Clara. Alguém havia abastecido a geladeira com refrigerante de gengibre, biscoitos de água e sal, frutas e vitaminas pré-natais enfileiradas como soldadinhos.
Lá em cima, ela encontrou o quarto do bebê.
Dois berços brancos. Prateleiras vazias. Uma cadeira de balanço perto da janela.
Clara parou na porta e começou a chorar.
Sebastian apareceu atrás dela. "Aconteceu alguma coisa?"
Ela enxugou as lágrimas, envergonhada. "Não. Esse é o problema. Está lindo."
"Eu não terminei. Eu pensei..." Ele pigarreou. "Eu pensei que você deveria escolher as cores."
Ela olhou para ele então.
Não para o bilionário. Não para o CEO.
Para o pai.
"Você pensou nisso?"
"Eu não sou totalmente sem educação."
Apesar de tudo, Clara riu.
E por um frágil segundo, a guerra entre eles parou. Naquela noite, Sebastian ficou parado na janela da casa principal, observando a luz brilhar na casa de hóspedes. Pensou em Elise, nas promessas feitas ao lado de leitos de hospital, nos embriões congelados na esperança e despertados pela tragédia.
Então seu telefone tocou.
Seu chefe de segurança falou primeiro.
“Senhor, revisamos o vazamento de informações da clínica. Não foi aleatório. E há mais alguma coisa.”
O aperto de mão de Sebastian se intensificou.
“O quê?”
“Jonas Monroe estava do lado de fora do tribunal hoje.”
O irmão de Elise.
Sebastian fechou os olhos.
A dor havia deixado Jonas instável. A raiva o havia tornado cruel. Mas se Jonas tivesse chegado perto de Clara, perto dos gêmeos…
“Encontrem-no”, disse Sebastian.
Do outro lado do gramado, Clara apagou a luz do quarto do bebê, sem perceber que o passado começara a se aproximar dela.
Parte 2
A primeira vez que Clara viu Sebastian Archer cozinhar, ele estava queimando panquecas na cozinha dela às 6h12 da manhã.
A fumaça subia em espiral em direção ao teto. A massa escorria pela lateral da bancada de mármore. Sebastian estava de pé junto ao fogão, de mangas arregaçadas até o antebraço, encarando uma panqueca deformada como se ela o tivesse traído pessoalmente.
Clara parou abruptamente no pé da escada.
“O que você está fazendo?”
Ele se virou rápido demais. A panqueca dobrou ao meio.
“Eu estava fazendo o café da manhã.”
“Você é dono de um império farmacêutico.”
“Sim.”
“E as panquecas te derrotaram.”
Seus lábios se contraíram. “A receita estava mal escrita.”
Pela primeira vez em semanas, Clara riu tanto que precisou se agarrar ao corrimão.
Sebastian a encarou, ofendido por exatos três segundos antes de algo em seu rosto se suavizar.
“Posso chamar o chef”, disse ele.
“Não.” Clara atravessou a cozinha e pegou a espátula.
Clara o repreendeu. “Sai da frente, Archer. Você é um perigo para o café da manhã.”
Aquela manhã mudou algo.
Não drasticamente. Não de uma vez. Mas como a luz do sol entrando por baixo de uma porta fechada.
Eles desenvolveram rotinas.
Sebastian apareceu às sete e meia com café — descafeinado para ela, expresso para ele. Clara contou a ele sobre os gêmeos, sobre o enjoo, sobre como o Bebê B parecia odiar mingau de aveia. Ele fingiu não sorrir quando ela disse coisas assim, mas ela percebeu.
Ele instalou banquinhos sem mencionar que havia notado que ela se esticava para alcançar as prateleiras mais altas. Ela pediu café etíope depois de ouvi-lo reclamar uma vez que o blend tinha gosto de “tapete queimado de sala de conferências”. Ele ajustou suas reuniões para que não interrompessem a hora da história virtual dela. Ela começou a deixar livros da biblioteca na mesa dele com post-its que diziam coisas como: Para bilionários emocionalmente reprimidos.
Ele os leu.
Ele nunca admitiu.
Com doze semanas, eles foram juntos ao ultrassom.
A sala estava escura e quente. Clara estava deitada na maca enquanto a Dra. Lila Bennett espalhava gel frio em sua barriga. Sebastian estava de pé perto da parede, rígido como um soldado aguardando ordens.
“Você pode se sentar ao lado dela”, disse a Dra. Bennett gentilmente. “A maioria dos pais faz isso.”
Pais.
A palavra pairou sobre eles.
Sebastian moveu-se para a cadeira ao lado de Clara. Ele colocou a mão com a palma para cima na borda da maca. Uma oferta, não uma exigência.
Clara hesitou, depois colocou os dedos nos dele.
O monitor piscou.
Então veio o som.
Dois batimentos cardíacos.
Rápidos. Fortes. Vivos.
Clara ofegou.
A mão de Sebastian fechou-se em torno da dela.
“Aqui estão eles”, disse a Dra. Bennett. “Gêmeos A e B. Ambos com ótimos resultados.”
Na tela, dois pequenos perfis se moviam em preto e branco granulado. Um chutou. O outro pareceu se afastar.
Clara chorou silenciosamente. Sebastian não disse nada. Mas quando ela olhou para ele, seus olhos estavam marejados.
"São reais", sussurrou ele.
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