Passei vinte minutos contorcida no chão de madeira, apertando os parafusos. Quando finalmente consegui tirar a poeira dos joelhos, a porta da frente se abriu. Chloe entrou, quarenta e cinco minutos atrasada, brandindo uma sacola de papel engordurada de uma padaria artesanal chique. Ela anunciou que havia trazido “um docinho”, radiante como se tivesse bancado pessoalmente todas as despesas da noite.
“Olha só a nossa garota brilhante”, exclamou Arthur, envolvendo-a num abraço sufocante.
Minha mãe saiu da cozinha, enxugando as mãos num avental florido. Ela me ofereceu um sorriso breve e frio. “Alice, por favor, leve as lixeiras de reciclagem para a calçada antes de nos sentarmos. Elas estão transbordando.”
Finalmente, nos reunimos em volta da mesa de jantar de mogno. O tilintar dos talheres parecia estranhamente alto. Arthur ergueu sua taça de vinho, o cristal refletindo a luz do lustre. “Vamos dar a volta na mesa. Diga uma conquista da qual você se orgulha muito este ano.”
Mantenho minha contribuição objetiva e breve. “Consegui a promoção para recebedora principal na Apex. Vem com um aumento salarial modesto e finalmente estou aprendendo as complexidades do planejamento de jogos da equipe.”
Tia Nora, sentada à minha esquerda, assentiu lentamente, em sinal de aprovação. “Isso é incrível, Alice. Parabéns.”
Minha mãe nem sequer desviou o olhar do prato. Cortou meticulosamente um pedaço de frango. “Não deixe isso inflar seu ego, Alice. Títulos pomposos muitas vezes geram complacência.”
Mordi a parte interna da minha bochecha, sentindo o gosto metálico.
Chloe pigarreou, girando dramaticamente sua taça de Pinot Grigio. “Tenho muito orgulho de como estou priorizando minha saúde mental”, declarou, colocando a mão sobre o coração. “Tive a imensa coragem de abandonar uma carreira que entrava em conflito fundamental com meus valores espirituais essenciais.”
Arthur sorriu radiante, com o peito estufado. "Incrivelmente corajosa, querida."
Concentrei-me intensamente em mastigar a comida, forçando os músculos do rosto a se transformarem numa máscara de pedra. Refleti sobre o meu sábado — um dia passado debaixo da pia do meu próprio banheiro, lutando com um cano corroído, seguido de uma hora arrancando o mato alto atrás da escada porque o proprietário se recusou a contratar um jardineiro. Pensei no envelope novo com dinheiro em cima da minha cômoda, já lacrado para o primeiro dia do mês.
Depois de devorarmos o bolo excessivamente doce, Helen começou a distribuir uma montanha de potes plásticos.
"Chloe, querida, pegue os melhores pedaços do peito de frango", disse ela carinhosamente, enquanto enchia o maior pote. Então, virou-se para mim. "Alice, comece a desmontar a decoração da mesa."
Ficamos presas no triângulo claustrofóbico da ilha da cozinha: eu, minha mãe e minha irmã. O ar estava impregnado com o cheiro de detergente de limão e baunilha artificial. Helen manteve os olhos fixos em um pedaço de filme plástico enquanto falava, adotando um tom de falsa indiferença, como se estivesse comentando uma leve mudança no tempo.
"A propósito", murmurou ela, esticando o plástico. "Estávamos pensando em algumas ideias. Achamos que Chloe se beneficiaria de passar um tempo maior lá em cima. Só um momento de calmaria para se reequilibrar."
Minhas mãos, a meio caminho de um vaso de vidro, ficaram completamente imóveis. Senti um arrepio na espinha. "Lá em cima onde, exatamente?"
"No seu apartamento, naturalmente", respondeu Helen, finalmente erguendo os olhos, com um sorriso forçado e imutável. "Faz todo o sentido. Você tem uma disciplina tão rígida. Vai mantê-la centrada e focada."
Chloe me olhou por cima da borda da taça de vinho, os lábios se curvando num sorriso presunçoso. "Respira, Alice. Somos família. O que é meu é seu, não é?"
Arthur entrou na cozinha, arrancando casualmente um pedaço de pele de uma coxa de frango que havia sobrado. "Não comece a bancar a territorial, Alice. Lembre-se de quem é o nome na escritura. É nossa propriedade. Você é apenas uma inquilina."
Permaneci em silêncio. Alinhei meticulosamente as tampas de plástico, pressionando-as uma a uma até que o estalo seco ecoasse no cômodo silencioso. Um peso sufocante se instalou no meu peito, como se eu estivesse engolindo pedras pontiagudas. Assenti com a cabeça uma vez, um movimento mecânico, porque assentir era infinitamente melhor do que iniciar um conflito nuclear em meio a uma cozinha coberta de migalhas de bolo.
Peguei os pesados sacos de lixo e saí marchando para o ar fresco da noite. Amarrei o plástico firmemente, parada na entrada sombreada da garagem, ouvindo a sinfonia abafada da casa. Risadas vazavam pelas paredes isoladas. Olhei para cima. A única janela do meu apartamento brilhava acima da garagem escura, um pequeno quadrado brilhante de autonomia que eu quase podia segurar na palma da mão.
Sussurrei ao vento noturno que era apenas conversa fiada. Eles se esqueceriam pela manhã. Mas, ao girar a chave de latão na fechadura, meu coração disparou. A porta, que eu havia trancado horas antes, abriu-se sem resistência, e um leve perfume floral emanou da escuridão lá dentro.
Capítulo 3: A Invasão do Santuário
O perfume pertencia a Chloe.
Acendi a luz do corredor, o brilho intenso iluminando a violação do meu santuário.
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