Nem os sussurros. Nem as câmeras. Nem mesmo a risadinha desagradável que a Sra. Harrington soltou perto do bar.
Richard parecia orgulhoso.
Ele guiou Sabrina pela entrada, sob a faixa do evento beneficente de inverno, com um largo sorriso, ombros eretos, sua elegante imagem pública impecável para doadores, membros do conselho e qualquer outra pessoa com poder aquisitivo suficiente para fazer diferença. Ele irradiava a confiança natural de um homem convicto de que o mundo acreditaria em qualquer versão da realidade que ele apresentasse primeiro.
Clara sentiu o bebê se mexer sob a palma da sua mão.
Um pequeno empurrão silencioso.
Um lembrete.
Ela respirou fundo, e depois mais uma vez. O ar estava denso com o aroma de lírios, perfume, cera derretida e vinho caro. Por um instante, o quarto pareceu encolher até que tudo o que ela conseguia ver era a mão de Richard na parte inferior das costas de Sabrina, guiando-a com uma intimidade que ele não demonstrava a Clara há meses.
"Minha querida", murmurou a Sra. Harrington ao se aproximar de Clara, suas pérolas brilhando contra o pescoço empoado. "Você está radiante. A gravidez lhe cai muito bem."
Clara olhou para ela com o sorriso ensaiado que aperfeiçoara após anos convivendo com homens poderosos. "Obrigada."
Os olhos da Sra. Harrington brilharam. "Que coragem a sua de vir esta noite."
Lá estava.
Não foi compaixão.
Diversão disfarçada de compaixão.
O sorriso de Clara permaneceu inalterado. "É a minha base também."
A velha piscou, como se tivesse esquecido que Clara possuía mais do que apenas uma aliança de casamento e um corpo grávido.
Do outro lado do salão, Richard aceitou uma taça de champanhe de um garçom que passava. Sabrina também aceitou uma, embora mal a tenha tocado. Estava absorta demais observando Clara.
Seus olhares se encontraram.
Sabrina sorriu.
Não era um sorriso largo. Não precisava ser. Era o sorriso pequeno e satisfeito de uma mulher que acreditava ter conquistado não só o homem, mas também o palco.
Clara havia imaginado esse momento inúmeras vezes nas últimas seis semanas. Os rumores começaram discretamente, fingindo preocupação. Um amigo de um amigo viu Richard saindo do Langford Residences com uma jovem. Um doador mencionou o nome de Sabrina com muita naturalidade. Uma floricultura enviou uma fatura por arranjos de flores que Clara nunca havia encomendado. Então chegou a noite em que Clara ligou para Richard às onze horas, perguntando se ele chegaria em casa logo, e ouviu uma mulher rindo atrás dela antes que ele dissesse: "Não me espere acordada", com a voz mais fria que a chuva de fevereiro batendo nas janelas.
Mesmo assim, uma parte desesperada dela ainda ansiava por uma mentira que pudesse sobreviver.
Um mal-entendido.
Uma ligação comercial.
Um erro que ele admitiria com vergonha.
Mas lá estava ele, diante de duzentos convidados, com os dedos de Sabrina agarrando seu braço e sem nenhum traço de vergonha no rosto.
Richard caminhou até o centro da sala, pegou o microfone do coordenador do evento e bateu nele uma vez.
O som ecoou pela sala.
Todas as conversas se dissiparam.
Clara sentiu as batidas do coração.
Ele se moveu novamente, desta vez com mais força, como se o silêncio repentino o tivesse assustado.
Os olhos de Richard percorreram a multidão. Por um breve instante, pousaram em Clara. Seu olhar era azul, límpido e impossível de decifrar.
Então ele desviou o olhar.
“Obrigado a todos por terem vindo esta noite”, disse ele com uma voz grave e calorosa, a voz em que os doadores acreditavam e que os jornalistas adoravam. “A Fundação Donovan sempre defendeu a família, a lealdade e a coragem de construir um futuro melhor.”
Clara quase caiu na gargalhada.
O riso ficou preso em sua garganta como uma facada.
Família.
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